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Com materiais reutilizados e orgânicos, residência em Serra Grande também reaproveitamento de toda a água e coleta de energia solar. Conheça o projeto descrito pelos próprios responsáveis.

Uma casa totalmente sustentável baseada na arquitetura orgânica. Considerado impossível para muitos, o feito foi alcançado por um grupo profissionais com uma construção em Serra Grande, na Bahia. Assinada pela arquiteta Irina Biletska, a obra foi erguida utilizando bambus, terra compactada e madeira reaproveitada. Teto verde, coletores de energia solar e reaproveitamento de água cinza são outros recursos utilizados no imóvel destinado a uma família que fez questão de respeitar os princípios sustentáveis do início ao fim.

Vista aérea da casa, que conta com teto verde.

Irina e os outros profissionais envolvidos na obra descreveram o processo de construção no texto abaixo, cedido pelos próprios ao Going GREEN Brasil.  Confira o relato e as imagens, igualmente cedidas pelos responsáveis pelo projeto:

Arquitetura e construção

A casa está localizada em uma fazenda que segue princípios sustentáveis. Foi desenhada para uma família com dois filhos. Duas áreas bem definidas e separadas foram projetadas: pública e privada, ligadas por um hall de entrada. A área pública é um espaço aberto, atendendo às necessidades da família com uma vida social ativa, contendo cozinha, hall e sala de jantar. Varandas espaçosas são conectadas em uma bela vista para a floresta, com o jardim  localizado de forma a aproveitar ao máximo o sol, satisfazendo assim a demanda dos pais de acompanhar as crianças brincando lá fora e dentro. Paredes autoportantes criam curvas, com espaços internos e externos bem aproveitados e frescos embaixo do telhado verde.

O desenho foi feito com metodologia de arquitetura orgânica. O foco foi unir esse método a soluções de baixo impacto na construção civil, concretizando o sonho de uma família fazer uma moradia que respeite o ser humano e todo o meio ambiente do entorno. Assim, as escolhas de materiais e técnicas utilizadas passaram por esta visão, desde a chegada dos insumos até o manejo dos resíduos da obra.

Bambu e terra compactada estão entre os materiais utilizados

As paredes da casa são mistas entre hiperadobe (terra compactada) – além de ser um elemento estrutural e térmico, isso facilitou as formas curvas da casa – e tijolos de solo-cimento (fornecido pela Eco Vila Blocos Ecológicos) comprados de uma pequena fábrica familiar, fortalecendo a economia local.

Boa parte do madeiramento da casa foi obtido de material demolido (fornecido pela Luzeiro Criação em Madeira, que também deu assessoria técnica na marcenaria da casa, toda executada no próprio local), e o restante através do manejo de árvores caídas dentro da propriedade, respeitando a legislação ambiental neste quesito. Outra escolha de material sustentável foi o uso de bambu Guadua (fornecido pela Bambugrama) nas colunas e vigas do telhado, trazendo singular beleza e leveza para suportar a carga exercida pelo teto verde.

Por sua vez, o teto verde permitiu transformar a cobertura da casa em um lindo jardim, diminuindo a área de impermeabilização da residência, que está situada próxima a uma área de proteção ambiental. Outra vantagem deste tipo de telhado é diminuir o aquecimento e perda de umidade no local, ajudando a manter uma temperatura agradável na casa. Todo o telhado capta as águas da chuva, que é conduzida e armazenada em uma cisterna de 40 mil litros cúbicos, sendo depois reutilizada para irrigação do próprio jardim do telhado e do sistema agroflorestal implantado no lote.

Já o  aquecimento da água de banho foi feito com coletores solares e armazenado em boiler, diminuindo significativamente o consumo de energia elétrica. Dispensando o chuveiro elétrico foi possível fazer a charmosa ducha com raízes (rizoma) de bambu no banheiro do casal. O cuidado com a água foi central nesse modelo construtivo. Por isso ás águas geradas em esgoto foram divididas em dois sistemas diversos.

Planta baixa

A água dos vasos sanitários é destinada a uma bacia de evapotranspiração, método que não permite a infiltração do esgoto no solo, já que o tanque receptor é impermeabilizado. Ela é filtrada e absorvida por bananeiras na superfície, que irão consumir e evaporar a água com suas grandes folhas, gerando ainda um alimento perfeitamente comestível. Já á água cinza (banhos, pias e tanques) é destinada a dois círculos de bananeiras, passando antes por pequenos biodigestores.

O ponto chave destes dois métodos de tratamento é que boa parte da água é evaporada, entrando no ciclo das águas de chuva e restabelecendo todo sistema  novamente. Além, é claro, das bananas são geradas e servem de alimento à família.

Análise estrutural

A análise estrutural da cobertura teve o objetivo de descobrir qual o vão máximo que poderia ser adotado pelos elementos estruturais do telhado.

São dois tetos vivos, sendo um com cerca de 122, metros quadrados e outro com 132. Sua estrutura foi projetada com colmos de bambu tratado da espécie Guadua Angustifolia com diâmetro externo de 12 centímetros e parede de 20 milímetros.

O teto verde

Como não dispúnhamos de laboratórios para análise de ruptura dos corpos de prova, utilizei uma estimativa de resistência característica dos elementos de bambu através das proporções apresentadas pelo coeficiente K, que foram retiradas de bibliografia especializada:

UMIDADE COMPRESSÃO FLEXÃO CISALHAMENTO
Seco (12%) 0,094 0,14 0,021
Verde (úmido) 0,075 0,11

Apesar da norma técnica de construção com bambu estar em trâmite junto à ABNT, até o presente momento não temos nenhuma rotina de cálculo em vigência, por isso os cálculos foram baseados na norma peruana (diseño y construcción con bambu), e um paralelo com a NBR 7190 (projeto de estruturas de madeira) foi estabelecido por meio de uma adaptação das análises de Estado Limite Último e Estado Limite de Serviço.

Ao fim, o resultado permitiu que a obra tivesse uma estrutura mais enxuta e segura.

Região geográfica e paisagismo

O território do litoral sul da Bahia se destaca pela sua grande biodiversidade. A Floresta Atlântica lá situada é referida como um contínuo de distribuição de espécies de árvores estratificadas e tem uma das mais importantes e ameaçadas biotas de floresta tropical do mundo, também conhecida como hotspot (Myers, 2000; Joly et al., 2014). Nesse contexto, ações de Restauração Florestal são realizadas para reverter o quadro de degradação resultante de empreendimentos impactantes nessas paisagens (Piovesan et al., 2013). O projeto de paisagismo para o terreno, de 6.000 m², foi pensado como um modelo para promover os processos ecológicos em escala local e de paisagem.

Vista da sala

A contextualização espacial do empreendimento possibilitou identificar os fragmentos mais próximos e de melhor qualidade (maior heterogeneidade de habitat) para estabelecimento de corredores ecológicos local, ou faixa de corredores de vegetação, na escala do empreendimento para futuras conexões entre habitats. A conexão entre os fragmentos de habitat e a permeabilidade das matrizes são atributos da paisagem que permitem fluxo de animais entre os fragmentos, possibilitando que populações de diferentes fragmentos atuem como populações contínuas, favorecendo o fluxo gênico e reduzindo a chance de extinção local (Piovesan et al., 2013).

Foi realizado o manejo na área da mata ciliar da lagoa com a remoção de dendezeiros (Elais guineensis) predominantes, substituídos por 19 espécies vegetais nativas (ex.: olandi – Callophyllum brasiliensis; pequi preto – Caryocar edulis; buranhem – Garcinia sp., jenipapo – Genipa americana; etc.) para atração da fauna local, além da poda da copa das árvores para induzir mudanças de fase no estágio sucessional dentro da manchas de habitat no empreendimento. Para ampliar cobertura florestal das áreas foi criado um sistema agroflorestal para aumentar a cobertura vegetação na área e suprir com alimentos os moradores residentes no empreendimento.

Para as ações de restauração ecológica através do paisagismo como ferramenta metodológica, tem-se focado na provisão de processos ecológicos (reestabelecimento da regeneração natural e dispersão de sementes) que fazem parte das etapas reprodutivas (polinização, dispersão de sementes e recrutamento de propágulos) de muitas espécies vegetais, incluindo a migração e fluxo gênico dentro das populações de vegetais e animais (Piovesan et al., 2013) na área em questão. Importante notar que processos ecológicos importantes para manutenção de ecossistemas viáveis dependem da mobilidade de animais, pólen, sementes e propágulos através da paisagem, ou seja, ocorrem em escalas mais amplas (Piovesan et al., 2013).

Referências bibliográficas:

PIOVESAN, J. C Hataya, Pinto-Leite, Rigueira & Neto, (2013) – Diretrizes para restauração ecológica. Caititu. v1.n1.d05

MYERS, N.; Mittermeier, R. A., Mittermeier, C. G., Fonseca, G. A. B., Kent, J., (2000). Biodiversity hotspots for conservation priorities. Nature, vol 403.

JOLY, C. A., Metzger, J. P., & Tabarelli, M.; Tansley review Experiences from the Brazilian Atlantic Forest : ecological findings and conservation initiatives.(2014).

PEREIRA, M. A. R. Bambu de corpo e alma. Marco A. R. Pereira e Antonio L. Beraldo. – – Bauru, SP: Canal 6, 2007. 240 p.; 21 cm.

Autores do texto e responsáveis pela obra:

Arquiteta: Irina Biletska (Acesse seu Facebook e Instagram)
Construtor: Jefferson Cruz – OCA construções sustentáveis
Consultoria em cálculo estrutural:  Bruno Liguori Sia – Ibirá Engenharia Estrutural e Bioconstrução
Tijolos TBC Eco Villa Blocos
Paisagismo: Annamaria Binazzi (arquiteta), Jonatas Santana (biólogo) e Lucas Daneo (técnico)

Veja mais fotos da construção e do projeto (clique para passar a imagem):

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