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Edifícios populares podem e devem adotar soluções sustentáveis e, inclusive, atestar o compromisso com certificações voltadas para habitação social.


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Complexo de Paraisópolis, em São Paulo, recebeu o Selo Casa Azul da CEF. Foto: Caixa Econômica Federal.

Engana-se quem pensa que a construção sustentável está atrelada apenas aos empreendimentos de alto padrão. O mercado de hoje passa por um momento de conscientização que, entre muitos avanços, trouxe a percepção de que a sustentabilidade também pode – e deve – ser implantada em edifícios populares.

Está é uma tendência que está em uma curva crescente no Brasil, inclusive tendo a constatação de certificações como o AQUA-HQE, da Fundação Vanzolini, o Selo Casa Azul, da Caixa Econômica Federal, e o GBC Casa e Condomínio, do Green Building Council Brasil.

Mas, por que durante tanto tempo a sustentabilidade foi pensada apenas para edificações de alto padrão? Uma das respostas que podem explicar este pensamento é o conceito de que produtos e materiais sustentáveis e certificados tendem a ser mais caros.

“O Selo Casa Azul tem como proposta demonstrar que estudos prévios e projetos bem concebidos são capazes de apresentar soluções habitacionais sustentáveis de baixo custo e de produzir empreendimentos integrados à cidade, com equipamentos que beneficiam toda a comunidade e influenciam diretamente na qualidade de vida dos moradores e da população do entorno”, diz Paulo Antunes de Siqueira, vice-presidente de Habitação da Caixa.

O Selo Casa Azul tem adesão voluntária e é voltado para empreendimentos habitacionais que adotam soluções construtivas eficientes aplicadas à execução das obras, ao uso, à ocupação e manutenção das edificações, objetivando incentivar o uso racional de recursos naturais e a melhoria da qualidade da habitação e do seu entorno. Os edifícios são classificados conforme o atendimento aos critérios vinculados à qualidade urbana, projeto arquitetônico, conforto ambiental, acessibilidade, eficiência energética, conservação de recursos materiais e naturais, gestão da água e práticas sociais, entre outros itens.

Segundo Paulo, a sustentabilidade afeta diretamente a construção civil no que diz respeito à otimização dos processos construtivos utilizados. Assim, é preciso atender a esta demanda de edifícios populares. “A sustentabilidade não deve, necessariamente, ser associada ao alto custo. Ela faz parte da nossa rotina e é responsabilidade de todos. Por isso reafirmamos que projetos bem elaborados e racionalmente executados têm plenas condições de atender aos critérios sustentáveis”, afirma o executivo.

O AQUA-HQE também atende edifícios populares através do seu referencial técnico. Para Manuel Carlos Reis Martins, coordenador da Fundação Vanzolini, ainda falta uma análise mais intrínseca sobre o que representa uma construção sustentável. “O mercado ainda não absorveu totalmente a essência das exigências da certificação AQUA-HQE, que é pensar o empreendimento face ao seu contexto funcional e local, encontrando as melhores soluções que serão desenvolvidas no projeto e incorporadas na execução, planejando e controlando todas as etapas, de modo a obter as melhores condições de desempenho em conforto e saúde para o usuário e de menor impacto ambiental, de forma técnica e economicamente viável”, afirma.

O selo AQUA – Habitação Social adere aos referenciais técnicos em níveis mais baixos de exigências – chamados de Base –, possibilitando que edifícios populares de cunho social também possam receber a certificação e atestar a sua sustentabilidade.

“Essa certificação exige os mesmos requisitos, só que em níveis mais adequados aos empreendimentos para fins sociais. O processo está disponível para edificações entre as faixas 1 e 3 do programa Minha Casa Minha Vida e deve ser adotado gradualmente no mercado”, explica Martins.

Projeto eficiente e sustentável

Como ser sustentável com um valor baixo de investimento? Algumas soluções arquitetônicas consideram a interação do edifício com o seu contexto ambiental e local, levando em consideração pontos como incidência do sol, sombreamento, regime de chuvas e ventos, clima, temperaturas locais, etc. Adequando o projeto e implementando técnicas de arquitetura, é possível otimizar o produto e o seu processo construtivo sem acrescentar nada ao custo da obra.

“A arquitetura bioclimática é um destes conceitos. Soluções como ventilação e iluminação naturais, envoltória desenhada para as melhores condições de insolação e sombreamento, uso de materiais e sistemas duráveis e de baixa manutenção, áreas vegetadas permeáveis e de baixo consumo de água para irrigação, iluminação de baixo consumo de energia, dispositivos de baixo consumo de água, normalmente proporcionam mais conforto e saúde, com economia de água, energia, conservação, manutenção e limpeza, sem impor custos adicionais a um empreendimento desenvolvido sem considerar esses fatores”, exemplifica o coordenador da Fundação Vanzolini.

Além disso, a análise econômica global do projeto pode propiciar o investimento em soluções adicionais, como, por exemplo, sistemas solares de água quente, geração de energia fotovoltaica, aproveitamento de água de chuva e água cinza para fins não potáveis. Nestes casos, é fundamental estimar o retorno do investimento, seja para convencer o comprador a cobrir esses custos seja quando a margem dos projetos permitirem absorvê-los e obter a vantagem da preferência do comprador na hora da escolha.

“Para isso, é necessário seguir as exigências da certificação AQUA-HQE, de pensar, planejar e controlar o projeto desde a definição do empreendimento até a sua entrega, escolhendo as soluções melhores e mais econômicas nas fases iniciais”, afirma Martins.

Já entre as categorias e critérios do Selo Casa Azul da CEF, os itens básicos constituem-se na concepção dos projetos arquitetônicos e urbanísticos em sua adequação a topografia do local – minimizando o impacto da intervenção com cortes e aterros no terreno ou a supressão da vegetação nativa; implantação dos edifícios de acordo com a insolação, regimes de ventos e chuvas da região ou definição do uso de brises, varandas ou vegetação como atenuantes; e dimensionamento adequado dos cômodos para que disponham de ventilação cruzada e iluminação natural.

“Estas são soluções simples que, quando definidas na fase de projeto, têm baixo custo e propiciam conforto ambiental aos usuários, reduzindo consequentemente o consumo de energia elétrica”, exemplifica Paulo Antunes, vice-presidente do setor de Habitação.

Outros itens que podem ser adotados em edifícios populares são: coleta seletiva dos resíduos sólidos e a disposição de espaços específicos para armazenagem; previsão de medição individualizada de água e gás; uso de sistemas de aquecimento solar e de energia fotovoltaica; captação de água de chuva e reúso das águas de chuveiros e máquinas de lavar roupa para limpeza das áreas comuns e rega de jardins; entre outras práticas sustentáveis.

Setor público

Para Manuel Martins, o setor público tem um papel importantíssimo quando o assunto é sustentabilidade em edifícios populares, principalmente ao estabelecer políticas de incentivos por meio de redução de taxas e tributos ou mesmo subsidiar algumas soluções.

“É bom lembrar que podemos calcular quanto a economia de água e de energia reduz a necessidade de investimentos em infraestruturas. Consequentemente, a economia do dinheiro público, que como o próprio nome diz, pertence aos cidadãos, e deveria ser aplicado nas ações que trazem mais benefícios aos contribuintes”, afirma.

A Caixa Econômica Federal é o maior agente promotor das políticas e programas do Governo Federal, dispondo internamente de uma Política de Responsabilidade Sócio Ambiental com ações específicas para o segmento da construção civil. A promoção do desenvolvimento sustentável demonstra que o propósito da entidade é gerar valor de forma socialmente responsável e ambientalmente respeitosa, tornando a sustentabilidade presente e relevante na vida dos clientes e da sociedade brasileira.

Por meio do Construcard, a Caixa possibilita a aquisição de equipamentos voltados para eficiência energética e hídrica, como placas solares, sistemas fotovoltaicos, de climatização, de reaproveitamento, captação e tratamento da água, hidrômetros, materiais ecológicos que disponham de PSQ e madeiras certificada, por meio de financiamento em até 240 meses.

“Compõe o subsídio destinado à produção habitacional de interesse social do Minha Casa Minha Vida o valor de R$ 3 mil destinados ao custo de aquisição e instalação do sistema de aquecimento de energia solar (SAS), que pode ser substituído por sistema alternativo de aquecimento de água ou geração de energia, inclusive em condomínios multifamiliares horizontais ou verticais”, completa Paulo Antunes de Siqueira.

Bioconstrução

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Sistemas construtivos com materiais alternativos pode reduzir custo de obra. Foto: Pxhere

De acordo com Paulo, o Ministério das Cidades estabelece que empresas construtoras e fornecedoras de materiais de construção que queiram participar dos programas de provisão habitacional do Governo devem atender ao conjunto de ações determinadas pelo Programa Brasileiro de Qualidade e Produtividade do Habitat (PBQP-H).

“Também são exigências dos programas habitacionais: exigência de madeira com origem legalizada, ou seja, de áreas de reflorestamento ou de manejo controlado; sistema de aquecimento solar, quando a tipologia é casa; e medição de água individualizada”, diz.

Recentemente, o Projeto de Lei (PLS 296/2018) propôs que o Minha Casa Minha Vida aceite financiamentos de empreendimentos que utilizam técnicas de bioconstrução para um percentual mínimo de unidades. A ação pode reduzir custos, especialmente nas localidades em que o transporte de materiais tradicionais – areia, cimento e tijolo – é mais caro. As técnicas de bioconstrução fazem uso inovador de materiais como adobe, taipa, solocimento, ferrocimento e bambu, os quais causam menos impactos ao meio ambiente.

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