Graduandos de engenharia civil possuem formação sustentável mais presente nas salas de aula. Tema é abordado de diferentes maneiras durante as matérias.

engenheiro civil
Engenheiro já sai da graduação com maior aprendizado de conceitos sustentáveis. Imagem ilustrativa.

Desde cedo, o papel da educação é essencial para o desenvolvimento sustentável de uma sociedade. Afinal, é por meio de uma boa base e da conscientização de pessoas que se torna possível mudar a forma de pensar e agir em prol do meio ambiente. Embora este seja um pensamento importante para todo o mundo, algumas atividades têm pesos maiores nesta equação e, muitas delas, estão relacionadas com a construção sustentável.

Uma obra é considerada sustentável quando concilia os três pilares do desenvolvimento sustentável: ser ambientalmente correta, socialmente justa e economicamente viável. Não só o meio ambiente, mas, grande parte do mercado exige padrões construtivos que proporcionam altos níveis de desempenho, conforto e qualidade ao mesmo tempo em que garantem o atendimento dos conceitos de sustentabilidade.

Para atingir estes resultados, a equipe de profissionais deve ser qualificada e consciente do seu papel. Hoje em dia, a formação de novos profissionais já se preocupa em desenvolver – desde os primeiros contatos do estudante com a profissão – conceitos e atitudes sustentáveis que serão colocadas em prática durante a atuação no mercado de trabalho.

O Going Green Brasil apresenta uma série de matérias que irá analisar como a sustentabilidade está inserida em dois dos mais importantes cursos de graduação: Arquitetura e Urbanismo e Engenharia Civil; além de mostrar como o tema possibilitou o surgimento de novas profissões, abrindo o leque de formação e atuação de estudantes.

Veja também: Como a sustentabilidade é abordada no curso de Arquitetura e Urbanismo?

Engenharia Civil

símbolo do curso de engenharia civil
Símbolo do curso de engenharia civil.

O curso de Engenharia Civil é o responsável por criar profissionais capazes de projetar, gerenciar e executar obras e construções. A profissão é regulamentada, portanto, é obrigatório ter o diploma de ensino superior – reconhecido pelo Ministério da Educação (MEC) – e ser registrado no Conselho Regional de Engenharia e Agronomia (CREA) para exercer a atividade.

A procura pela formação também é bastante ampla, já que é considerada uma das profissões mais valorizadas e bem remuneradas do setor – o que vem acompanhado, claro, de um alto nível de exigência e responsabilidade.

As atividades da construção civil têm um enorme impacto no meio ambiente, uma vez que o setor é responsável por consumir uma grande parcela de recursos naturais, gerar uma significativa porcentagem de resíduos sólidos e emitir gases de efeito estufa na atmosfera. Assim, a sustentabilidade se tornou tema recorrente no trabalho de engenheiros, que buscam formas harmoniosas de conciliar o desenvolvimento sustentável.

“Tornar a sustentabilidade um requisito inicial de qualquer tipo de projeto de engenharia civil – mesmo em pequenas reformas – é essencial para alterar a situação atual da sociedade, onde ainda há um grande impacto ambiental e mesmo econômico na realização de qualquer obra”, explana o Prof. Dr. Ely Antonio Tadeu Dirani, coordenador do curso de Engenharia Civil da Pontifícia Universidade Católica de São Paulo (PUC-SP).

Segundo Dirani, no curso de graduação da PUC-SP, o tema é abordado especificamente em duas disciplinas introdutórias – Ciências do Ambiente e Gestão Energética –, mas considerando a importância do assunto, ele acaba permeando todo o programa.

“Nas disciplinas de Materiais de Construção Civil e Tecnologia da Construção Civil, por exemplo, é impossível discorrer sobre as aulas sem levar em conta os impactos ambientais provocados no emprego de cada tipo de material básico, de acabamento, etc. Por exemplo, a seleção de materiais com menor impacto ambiental ou a questão do movimento de terras em grandes obras, onde são abordadas as consequências para o meio ambiente e como poderiam ser mitigadas”, diz o professor.

Outra universidade que aborda a sustentabilidade no decorrer do seu conteúdo programático é a Fundação Armando Alvares Penteado (FAAP), também situada na capital paulista. “A FAAP tem um grande pioneirismo nesta questão. Há 10 anos possui em sua grade curricular a disciplina de Construções Sustentáveis. Além disso, as demais disciplinas do curso são transversais, ou seja, elas se complementam nessa busca constante de incentivar o empreendedorismo sustentável e responsável”, comenta a Profa. Dra. Ana Rocha Melhado, que, além de lecionar no nível de graduação, também é coordenadora da pós-graduação em Construções Sustentáveis.

É importante que a sustentabilidade não seja abordada somente em sala de aula, por meio de projetos e disciplinas do curso, mas, acima de tudo, tenha o intuito de criar raízes que possam ser expandidas para atitudes no dia a dia dos alunos como cidadãos. A conscientização de todos os futuros e atuais profissionais quanto à sua importância, por exemplo, traz benefícios simples, mas de extrema valia, como a redução do consumo de energia elétrica e de água.

O contato do aluno com a sustentabilidade desde o início da sua formação profissional trará, fundamentalmente, benefícios muito mais abrangentes para o desenvolvimento sustentável da sociedade.

“A real importância está na formação do indivíduo, que, associada aos conceitos aprendidos em sala de aula, transformará o aluno em um profissional completo, com visão holística, antenado às tendências internacionais, podendo atuar como engenheiro não apenas no Brasil, mas em qualquer outro país que pratique e respeite os princípios do desenvolvimento sustentável”, afirma a Profa. Ana Rocha.

Mudança de paradigmas

construção sustentável
Formação de profissionais com esta vertente pode ajudar no desenvolvimento sustentável do mercado. Imagem ilustrativa.

Em muitos casos, a sustentabilidade ainda é interpretada por um paradigma obsoleto de que a sua implementação é custosa e voltada somente para empreendimentos de alto padrão. Há inúmeros cases que mostram que esta é uma ideia equivocada, desta forma, é preciso contrapô-la para os futuros engenheiros que estão em sala de aula.

“É fundamental demonstrar os aspectos econômicos envolvidos para os estudantes em formação. A sustentabilidade não torna necessariamente mais caro um projeto. Na verdade, busca-se mostrar que, sob vários aspectos, é possível ter uma significativa redução de custos em obras que consideram a questão ambiental e a sustentabilidade como critérios iniciais do projeto”, explica o Prof. Ely, da PUC-SP.

Nos últimos 10 anos, muita coisa aconteceu em relação a este assunto. Sem dúvida, a grande alteração foi o avanço tecnológico, que possibilitou consumir menos recursos, reduzir a movimentação do terreno, aumentar a velocidade da obra e, principalmente, reduzir desperdícios no canteiro de obras – entre outras medidas sustentáveis.

“Estes pontos passaram a ser exaustivamente explorados em salas de aula e nos projetos realizados pelos alunos. Também na gestão houve uma mudança significativa com a introdução dos conceitos de produção enxuta – também chamado de Lean Production –, cujo foco é reduzir recursos e tempo e aumentar a qualidade dos produtos produzidos”, diz Ely.

Embora a área da construção civil no Brasil tenha certa resistência para assimilar algumas mudanças, a inerente alteração do quadro de profissionais devido à formação sustentável que se está desenvolvendo já nas faculdades levará a mudanças positivas no perfil do setor em um determinado momento.

“Novos engenheiros, contaminados desde a sua formação com conceitos de produção enxuta e sustentabilidade, devem causar impactos bastante positivos no mercado de green building. Este processo ainda é lento na construção civil, daí a importância de explicitar os aspectos econômicos vantajosos do tema”, afirma o coordenador do curso na PUC-SP.

Veja também: Sustentabilidade impulsiona o crescimento de novas profissões

Formação especializada

Atualmente, o estudante que deseja se especializar nesta área tem a disposição alguns cursos de especialização, no entanto, é essencial que desde a graduação o interessado busque programas que já estejam sintonizados com esta nova realidade.

Para Ana Rocha Melhado, é imprescindível que o aluno busque conhecimento, também, fora das salas de aulas. “O principal caminho é a leitura, visitas técnicas, viagens nacionais e internacionais, buscando adquirir e trocar experiências com estudantes, professores, pesquisadores e profissionais de diferentes áreas, não apenas em Engenharia”, explica.

Segundo ela, que é coordenadora do programa de pós-graduação de Construções Sustentáveis da FAAP, uma boa especialização deve dar mais ferramentas para profissionais graduados nas áreas que permeiam a construção civil, desenvolvendo competências para a gestão e execução de projetos sustentáveis no mercado imobiliário.

“O foco do curso de Construções Sustentáveis é do instigar o debate, provocando reflexões que irão contribuir para a formação dos profissionais envolvidos com projeto e construção, responsáveis pela transformação e garantia de recursos básicos como água, saneamento e energia”, diz Ana Rocha.

Se especializar em sustentabilidade, com certeza, vai abrir muitas portas para estes futuros profissionais. Afinal, este é um assunto que veio para ficar e que cada vez mais ganha espaço na sociedade, seja dentro do ambiente corporativo seja entre a população. Ter estes conceitos intrínsecos no perfil profissional e estar preparado para colocá-los em prática são excelentes formas de alavancar o currículo.

Hoje em dia, as possibilidades de atuação são bastante expressivas, já que o profissional pode trabalhar como empreendedor, incorporador, projetista, construtor e consultor, além de atividades voltadas para o lado acadêmico, como professor e pesquisador.

“Não há limites de atuação. O tema da sustentabilidade não deve ser tratado como um modismo e, sim, como uma importante variável no mundo dos negócios. Obras não sustentáveis não são lucrativas, simples assim. Este novo profissional deve estar constantemente preocupado em reduzir os impactos ambientais, de maneira global, em qualquer projeto em que seja o responsável”, finaliza Ely.

Going Green Brasil apresenta série de matérias sobre as principais formações profissionais dentro da construção sustentável. Confira como a sustentabilidade é abordada nos cursos de engenharia civil e arquitetura e urbanismo, além de uma matéria especial sobre as novas profissões sustentáveis no mercado. 
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