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Para Miguel Bahiense Neto, presidente da Plastivida, colocar o foco da discussão nos canudos plásticos é ineficaz. Solução está na educação sustentável.

Miguel Bahiense, presidente da Plastivida, se posiciona na guerra dos canudos plásticos
Miguel Bahiense Neto, presidente da Plastivida. Foto: Divulgação/Plastivida.

Desde o ano passado, quando começou a campanha contra a poluição plástica nos oceanos, os canudos plásticos – e outros produtos fabricados com o material e que são considerados de uso único – se tornaram os maiores vilões do meio ambiente. Em todo o mundo, diversas leis e projetos surgiram em prol do banimento dos canudinhos.

Números e fatos estão aí para comprovar que, sim, o plástico é responsável por impactar negativamente a qualidade dos oceanos, dos ecossistemas marinhos e, consequentemente, de todo o planeta. Porém, o banimento destes itens é a solução mais eficaz? Qual é o papel da indústria do plástico nesta história?

O Going Green Brasil apresenta duas matérias especiais sobre o assunto, trazendo os dois lados da moeda: quem é contra e quem é a favor do banimento nesta guerra dos canudos plásticos.

Veja também: Banir os canudos plásticos é a solução? A opinião de quem é a favor da medida

Para Miguel Bahiense Neto, presidente da Plastivida – Instituto Socioambiental dos Plásticos –, a educação sustentável é o pilar para que a sociedade evolua no quesito de consumo consciente. Um dos argumentos em torno do banimento dos canudinhos é justamente a falta de conscientização da população quanto ao uso e descarte adequado do produto.

“O processo de educação poderia partir de uma lei que estabelecesse que os estabelecimentos informassem seus clientes de que os canudos plásticos estão disponíveis para serem usados em qualquer necessidade, mas, que, prioritariamente, é um local adaptado a não oferecê-los. Esta conscientização poderia até culminar em um futuro no qual os canudinhos não são mais necessários. Só que tudo isto aconteceria de forma voluntária”, afirma.

Confira abaixo a entrevista completa com Miguel Bahiense Neto sobre educação sustentável e consumo consciente.

Nós não discutimos a questão a fundo, apenas proibimos e colocamos a culpa nos canudos plásticos. Simplesmente banir o item corta qualquer processo de evolução e entendimento por parte da população.

Miguel Bahiense, presidente da Plastivida
Foto: Divulgação/Plastivida.

Qual é o papel do plástico no nosso dia a dia?

A sociedade sempre existiu com diversos materiais até meados dos anos 1950, quando o plástico começou a aparecer e substituir outras matérias-primas com eficiência e baixo custo. Basta olhar para qualquer ambiente e encontramos produtos e peças feitos de plástico.

Na construção civil, ele é utilizado imitando diversas matérias-primas com eficiência e qualidade. Naturalmente, isso cria uma guerra comercial, o que faz com que cadeias produtivas ataquem de forma inapropriada e incorporem este discurso absurdo contra o plástico. Claro que existem problemas – como qualquer produto que chegue ao final de sua vida útil e não tenha o descarte adequado –, mas, de fato, isso virou uma batalha de todos contra o plástico.

É possível viver sem o material?

A sociedade não vive sem o plástico. O que precisamos mudar é o diálogo de entendimento sobre o material, que precisa ser reinventado para que a gente entenda os seus benefícios, utilize com consciência e destine corretamente.

O plástico nos oferece tantos benefícios e nós só precisamos devolver um: a destinação adequada para a reciclagem. Se conseguirmos isso, boa parte dos problemas futuros estará bem encaminhada. Obviamente, o que existe hoje de passivo deve ser tratado de uma forma que minimize os impactos que estão sendo causados.

Quais são os caminhos defendidos pela indústria do plástico contra o banimento dos canudinhos?

O diálogo e a educação são os pilares para as pessoas aprenderem a se comportar melhor quando o assunto é consumo consciente. A decisão de proibir e colocar o plástico como vilão da história é exatamente oposta ao processo que incentivamos.

Falando especificamente de ONGs que têm suas redes de influência, entendo que elas poderiam, junto com a própria indústria do plástico, estabelecer uma rota de diálogo muito mais educativa. Fica aqui o convite para que esta conversa aconteça de forma madura, sensata e baseada em educação ambiental.

Costumo dizer que a lei que proíbe os canudinhos no Rio de Janeiro estabelece que restaurantes e bares, basicamente, informem seus clientes de o produto não está disponível por ser considerado um problema. Isso não é educar.

O processo de educação poderia partir de uma lei que estabelecesse que os estabelecimentos informassem seus clientes de que os canudos plásticos estão disponíveis para serem usados em qualquer necessidade, mas, que, prioritariamente, aquele é um local adaptado a não oferecê-los. Esta conscientização poderia até culminar em um futuro com consumo mais consciente, no qual os canudinhos não são mais necessários.

Só que tudo isto seria de forma voluntária. Todos devem ter o direito de usar o item, por exemplo, cerca de 15% da população brasileira tem uma tipo de deficiência motora permanente ou transitória. O consumo consciente deve ser priorizado. Além disso, a lei também deveria evoluir e discutir a destinação correta para o processo de reciclagem, não só dos canudos plásticos, mas de outros materiais também.

canudos plásticos
Foto: Pixabay/moritz320_

As soluções apresentadas são mais sustentáveis que o plástico?

É importante notar que as alternativas dadas são declaradas como soluções sustentáveis por quem coloca os canudos plásticos como vilão, mas elas são mais caras e extremamente perigosas.

Vamos começar pelos canudos de bambu. Sabemos que a parte interna do bambu é porosa, ou seja, absorve o que passa por dentro. O usuário não consegue lavar e, com o tempo, vai acumular fungos e bactérias e virar um problema de higienização.

Já o canudo de massa é dado como biodegradável por ser um tipo de alimento, mas se você olhar todo o processo produtivo até chegar ao macarrão, talvez não faça sentido. No final, ocorre o mesmo problema de destinação incorreta, o que no caso dos canudos de massa é jogar comida fora. Parece um pensamento simples, mas é um fato.

O canudo de alumínio precisa de um item de plástico para ser higienizado internamente. Ou seja, você começa a consumir mais matéria-prima porque tem o canudo e mais um dispositivo para lavá-lo. Por sua vez, o papel é um material biodegradável, mas não biodegradado. Assim como o plástico é reciclável, mas não reciclado.

As pessoas não entendem que a reciclagem é o processo de tratamento de um produto reciclável e a biodegradação é o processo de tratamento de um produto biodegradável. Porém, para que estes processos aconteçam, nós temos que coletar seletivamente e destinar corretamente. Largar um canudo de papel no meio ambiente e esperar que ele suma não é biodegradação.

A biodegradação só pode ocorrer de forma controlada e correta em ambientes adequados – as chamadas usinas de compostagem, inexistentes no Brasil. Então, ainda que existissem usinas de compostagem, nós teríamos o mesmo trabalho – que hoje está em falta – de separar e destinar para o processo de tratamento.

Veja que nós não discutimos a questão a fundo, apenas proibimos e colocamos a culpa nos canudos plásticos e o que vier tende a parecer mais sustentável. Mas não é. A discussão precisa evoluir. Simplesmente banir o item corta qualquer processo de evolução e entendimento por parte da população.

Há uma política para destinação correta do plástico?

Existe a Politica Nacional de Resíduos Sólidos (PNRS), que foi sancionada em 2010. Já em 2015 entrou em vigor o Acordo Setorial de Logística Reversa de Embalagens. A PNRS não trata de uma matéria-prima isoladamente, o objetivo dela é ampliar a reciclagem dos materiais recicláveis. Se na política nacional nós não separamos o que é reciclável e nem destinamos para a reciclagem, não adianta em nada.

A Plastivida é uma das signatárias deste acordo, juntamente com outras duas cadeias produtivas – alumínio e papel/papelão –, mas outras optaram por não entrarem no processo.

lixo plástico mar
Lixo que chega aos oceanos vem de rios e córregos das cidades. Foto: Pixabay/flockine_3569659.

Qual é a origem do lixo plástico nos oceanos?

A origem é o descarte inadequado. Se você descarta qualquer produto de forma inadequada a tendência é que ele vá causar um impacto negativo ao meio ambiente. No caso do plástico, seguramente por ter características de leveza, ele tende a cair em rios e, consequentemente, no mar. Não adianta o governo de São Paulo achar que por estar longe do oceano, por exemplo, o não tratamento dos resíduos sólidos urbanos da cidade não vai impactar os mares.

Desde 2012 a Plastivida tem uma parceria e desenvolve estudos com o Instituto Oceanográfico da Universidade de São Paulo (IOUSP), nos quais levantamos a presença do lixo nos mares e a porcentagem dos plásticos no mundo inteiro. Uma das grandes conclusões foi o fato de ter sido identificado que quanto mais degradado o ambiente marinho, pior é a gestão de resíduos sólidos urbanos daquele local. E não estamos particularizando os plásticos, o estudo está dizendo que se os resíduos sólidos são mal tratados.

Este discurso não é levado em conta por quem se posiciona em relação ao lixo marinho. Nós vemos por aí campanhas de banimento do plástico nas praias e nos mares, mas que esquecem que saindo da areia da praia o que se encontra é um ambiente em que as prefeituras não têm uma gestão adequada de resíduos urbanos.

Portanto, não adianta falar do lixo no mar se não discuti-lo em terra. Ao olhar apenas para os resíduos marinhos, consequentemente, ficamos de costas para a terra. Este é o grande equívoco deste processo. Resolvendo um, se resolve o outro.

O diálogo e a educação são os pilares para as pessoas aprenderem e se comportarem melhor quando o assunto é consumo consciente.

Como incentivar o consumo consciente?

Nós precisamos ter ideias que realmente ajudem no processo. Nós vemos ambientalistas que fazem canecas reutilizáveis de plástico e distribuem em eventos onde se criticam os copos de uso único. Mas, por que o copo é de uso único? Quem define que o copo descartável é de uso único? É a fábrica ou a minha atitude?

Sabemos que um copo plástico de 200 ml consome em seu ciclo de vida 32 ml de água. Se eu utilizar este copo duas vezes para consumir água, estou ingerindo 400 ml. Um copo de vidro do mesmo tamanho gasta 1.700 ml de água para lavar. Então, que movimento é este que não entende o que é impacto ambiental?

Claro que se não houver destinação correta deste copo para a reciclagem, o problema irá persistir. Mas este problema é possível resolver se houver uma campanha de conscientização ambiental e de reciclagem. Agora, utilizar 1.700 ml de água para lavar algo que me serviu 400 ml não me parece lógico. São exemplos de estudos que foram feitos e que mostram que a decisão de ser algo de uso único, como o canudo, depende de nós.

Está em discussão um projeto de lei em Porto Alegre (RS) sobre os canudos plásticos, que na minha avaliação é completamente equivocada. A lei proíbe os itens em bares e restaurantes, mas permite que sejam comercializados para que os consumidores tenham canudos em suas casas.

O grande equívoco é exatamente a proibição nos locais onde, teoricamente, a coleta seletiva tinha tudo para funcionar. Nos estabelecimentos, onde a lei poderia obrigar a coleta e destinação correta dos canudos plásticos, o uso é simplesmente proibido e não há um processo de educação.

Qual é o papel da indústria para reverter os danos causados pelo material, principalmente na questão do microplástico?

Quando nos aproximamos da realização dos Jogos Olímpicos no Rio de Janeiro em 2016, a mídia passou a falar bastante da poluição da Baía de Guanabara e na possibilidade de uma sacola plástica ser a vilã de toda a história. Aquilo me instigou de tal maneira que, na época, pedi um estudo ao Alexander Turra, professor titular do IOUSP, sobre a contaminação do local.

O estudo foi divulgado em uma revista cientifica brasileira, na qual a arte gráfica mostrava um iceberg com 1/11 visíveis e 10/11 submersos. Descobrimos que a poluição embaixo d’água revela tantos outros problemas maiores que o próprio plástico, como, por exemplo, o esgoto sanitário. No entanto, todo mundo entra na onda de banir o plástico e as soluções acabam sendo mal avaliadas.

Obviamente que um dos males é o microplástico, porém, é importante dizer que ele tem várias vertentes. Por exemplo, um dos maiores problemas gerados em terra e que chega aos mares é borracha de pneus. O pneu foi feito para desgastar e durante o atrito com o asfalto ele vai soltando pedacinhos. No momento em que chove e venta, este microlixo é transportado ao mar.

Já vi estudos que revelam que os pedaços de plásticos são muito menores do que a poeira emitida pelos carros ou dos fragmentos de borrachas. Outro caso é o tecido sintético, ou seja, de poliéster, que é plástico. Ao ser lavado nas nossas casas, eles soltam fibras que também terminam indo em direção de rios e mares.

Quais outras medidas podem ser eficazes?

Quando nós fizemos a análise da presença dos plásticos nos mares com a USP, observamos que uma parte do lixo presente eventualmente nas praias pode vir da própria indústria, através dos pellets – aquelas bolinhas de plástico antes de virar um produto. Apesar de ser um volume irrisório (0,01%), ele está sob responsabilidade da indústria. Se aparece no mar é, provavelmente, porque caiu durante o seu transporte.

A Plastivida criou um projeto chamado Pellet Zero – muitos países já o praticam e adaptamos a realidade brasileira –, o que comprova a nossa preocupação com os seus processos. Entendemos que se não mudarmos nosso comportamento, a indústria não vai perpetuar. Há uma mudança sob o ponto de vista ambiental em nossos processos.

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