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A arquiteta e urbanista Adriana Levisky nos conta a sua trajetória na arquitetura e fala sobre a importância da sustentabilidade na área.


conteúdo dia da mulher


Adriana Levisky
Em 2003, Adriana Levisky fundou o seu próprio escritório: o Levisky Arquitetos | Estratégia Urbana. Foto: Nathalie Artaxo.

Para celebrar esta importante data que marca a conquista feminina por direitos e igualdade de gênero, neste dia 8 de março, Dia Internacional da Mulher, o Going Green Brasil apresenta três entrevistas exclusivas com mulheres que atuam no setor da construção sustentável.

Apesar da luta por respeito ainda ser constante e necessária, é importante olhar para exemplos atuais e ressaltar a presença feminina em posições de liderança e de destaque, que exercem um papel fundamental para o desenvolvimento de sociedades mais justas e socialmente sustentáveis.

A segunda personagem do nosso especial é Adriana Levisky, sócia-titular do escritório Levisky Arquitetos |  Estratégia Urbana. A arquiteta urbanista é vice-presidente da Associação Brasileira dos Escritórios de Arquitetura (AsBEA); conselheira do Conselho Municipal de Política Urbana de São Paulo (CMPU) e do Conselho de Arquitetura e Urbanismo de São Paulo (CAU/SP); e membro representante da FecomercioSP na Câmara Técnica de Legislação Urbanística (CTLU) e no Conselho de Preservação da Paisagem Urbana (CPPU).

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Em seu escritório, Adriana atua em projetos urbanos e arquitetônicos, sobretudo institucionais nas áreas da educação, saúde e cultura e de consultoria estratégica. A partir de uma visão que une criatividade e inovação, o Levisky Arquitetos | Estratégia Urbana elabora soluções e ações específicas relacionadas às estruturações estratégicas com base nas legislações urbanística e edilícia, no desenvolvimento e aprovação de empreendimentos complexos, bem como na elaboração de ações de vizinhança e na viabilização de interlocuções e modelos de cooperação público-privados.

Com um portfólio que traz mais de 7 milhões de m² desenvolvidos em projetos, é reconhecido por uma atuação focada em requalificação de espaços públicos e privados para a valorização urbana e a melhora da qualidade de vida nas regiões metropolitanas.

Conversamos com Adriana Levisky sobre a sua carreira, sua visão de como a arquitetura e a sustentabilidade podem caminhar em harmonia e a importância do papel da mulher nesta área de atuação tão importante para o País.

Para a concepção de um projeto, é preciso ter um repertório relacionado às soluções de infraestrutura, de inovações vinculadas à sustentabilidade no seu mais amplo espectro.

Gostaria que você falasse sobre a sua carreira. Quando decidiu que iria ingressar na área de arquitetura e os seus trabalhos posteriores.

Sou formada na Faculdade de Arquitetura e Urbanismo da Universidade de São Paulo (FAU-USP). No final do curso eu tive a oportunidade de estagiar com a Lina Bo Bardi, com quem aprendi muitas lições importantes para a minha trajetória profissional, sendo que hoje estou à frente do escritório Levisky Arquitetos | Estratégia Urbana que completa 16 anos de vida em 2019.

Ainda no período que antecedeu a fundação do meu escritório, estagiei na Brasil Arquitetura e também estive por um ano e meio na Europa. Durante minha vivência internacional, realizei atividades vinculadas às exposições da Lina Bo Bardi que aconteciam em países europeus, conheci diversas cidades, estudei e tive a oportunidade de ampliar a minha visão de mundo.

Quando retornei ao Brasil trabalhei na Secretaria Estadual de Bem-Estar Social, com projetos de capacitação, geração de renda e cultura. Uma experiência que me proporcionou adquirir amplo e aprofundado conhecimento sobre questões socioeconômicas do Estado de São Paulo, bem como relacionar a questão da produção artesanal à indústria.

Quanto a este enfoque, muito aprendi de minha experiência com e sobre a Lina Bo Bardi. Neste período realizei meu mestrado na Faculdade de Filosofia, Letras e Ciências Humanas da USP, com foco da pesquisa em história das mentalidades e semiótica, um trabalho que resultou na publicação da minha tese intitulada “A Espacialização do Sagrado e a Sacralização do Espaço”.

Neste momento, passei a lecionar em faculdades de arquitetura, como na Brás Cubas, na Módulo e na Uniban, com foco nas disciplinas de “Introdução à Arquitetura” e “Desenho Urbano”. Ministrei aulas por aproximadamente sete anos. Neste período, em parceria com um sócio, instituí uma empresa que se chamava Levisky Loureiro Arquitetos. Trabalhávamos com projetos, reformas e acompanhamento de obras.

Em 2003, optei por mudar o foco do trabalho e abrir o meu escritório atual. Junto à minha equipe, temos desenvolvido um portfólio extenso de Projetos Urbanos e Projetos Arquitetônicos, sobretudo institucionais nas áreas da educação, saúde e cultura e também trabalhos de Consultoria Estratégica.

No eixo de atuação em Consultoria Estratégica, sempre partimos de um amplo e minucioso conhecimento sobre a legislação urbanística para a estruturação de novos negócios, sobretudo na área de mercado imobiliário e corporativo. Quanto aos projetos urbanos, atuamos fortemente com foco em viabilizar a elaboração de ações de vizinhança e de interlocuções e modelos de cooperação público-privados, estratégia que resulta em uma visão acurada do nosso escritório para identificar potenciais e oportunidades não usuais de desenvolvimento de novos negócios.

Em sintonia com a necessidade de contribuir para a necessária inovação do desenho urbano nas cidades contemporâneas, entendemos como sinônimo de sustentabilidade a devida atenção às questões sociais, culturais, econômicas e ambientais inerentes ao conjunto de todos os projetos que realizamos. Permeia a nossa atividade cotidiana uma preocupação técnica vinculada a esses pilares conceituais, bem como um olhar voltado para a implementação de ações estratégicas do ponto de vista legal e político.

Este posicionamento nos levou a obter resultados efetivos frente aos desafios e suas respectivas oportunidades de respostas, em uma série de projetos que realizamos no espaço urbano. Temos realizado cada vez mais projetos na escala urbana focados na melhora da qualidade de vida das pessoas nas grandes cidades. São trabalhos para os quais aspectos de viabilidade, questões comportamentais, culturais e ambientais, bem como as modelagens jurídicas e financeiras, pautam a construção de uma estrutura e um modelo de relação saudável entre as esferas pública e privada.

Já no eixo de atuação em projetos arquitetônicos, sobretudo institucionais, que por sua vez são âncoras estruturadoras dos espaços urbanos, temos trabalhado com foco nas áreas de saúde, educação e cultura. Enfim, temos realizado projetos de reurbanização de assentamentos irregulares, trabalhos de requalificação urbana e preservação do patrimônio cultural, planos diretores e projetos de hospitais, escolas e espaços culturais.

Unidade Senac São Miguel Paulista
Unidade Senac São Miguel Paulista. Projeto Arquitetônico do escritório Levisky Arquitetos | Estratégia Urbana. Foto: Ana Mello/Pedro Mascaro.

Como arquitetura e sustentabilidade podem caminhar juntas em um projeto?

O conceito da sustentabilidade está relacionado ao conjunto das premissas que devem estar presentes na origem de um projeto, seja arquitetônico ou urbano, seja uma consultoria estratégica. Para a concepção de um projeto é preciso ter um repertório relacionado às soluções de infraestrutura, de inovações vinculadas à sustentabilidade no seu mais amplo espectro, desde as soluções construtivas, sistemas e infraestruturas possíveis de especificação até as soluções que geram flexibilidade e adaptabilidade nas edificações, bem como soluções que envolvem questões vinculadas às legislações que possam viabilizar retrofits – uma tipologia que acreditamos ser de crucial importância na realidade contemporânea das cidades.

De um lado existe um trabalho intenso de pesquisa e capacitação de profissionais em nosso escritório, sempre em busca de mais conhecimento sobre premissas de sustentabilidade para a elaboração de projetos que alavanquem inovação e uso de novas tecnologias. Por outro lado, adotamos uma postura que considera a necessidade de uma visão sistêmica sobre todas as questões que definem o conceito de sustentabilidade.

Explico: não se trata de levar em consideração somente o viés ambiental, que é claramente muito importante, mas sim de abordar questões ambientais em sinergia e ao lado das questões sociais, culturais e econômicas dos empreendimentos, que são igualmente fundamentais para se atingir um resultado sustentável, sobretudo no longo prazo.

Assim criamos um círculo virtuoso nas várias interfaces e roupagens que a sustentabilidade deve assumir para abarcar um projeto de uma maneira completa e sustentável, aqui compreendendo a característica fundamental de permitir longevidade ao empreendimento de modo planejado, viável e estruturado para as necessárias adaptações no tempo que o mantenham “atualizado tecnicamente” e competitivo em um mercado contemporâneo que exige transformações constantes.

Veja também: Arquitetos da sustentabilidade: o DNA sustentável de Mariana Crego

As pessoas estão mais preocupadas com a sustentabilidade na hora de adquirir um imóvel?

É um tema que tem sido cada vez mais perceptível para a população, de uma forma geral. A percepção de valor talvez não esteja tão amadurecida e clara para várias partes da sociedade. No entanto, em alguns setores, certamente sim.

Podemos perceber, por exemplo, uma curva crescente de empreendimentos no setor corporativo, no hospitalar e educacional que vem sendo concebidos de modo a tratar premissas de sustentabilidade como um ativo, como um diferencial de mercado.

O grande desafio é viabilizar economicamente um projeto?

Com certeza. O desafio é projetar com o objetivo de oferecer a melhor relação custo-benefício ao cliente, de acordo com diversas variáveis tais como a tipologia do empreendimento, o perfil do cliente e do público-alvo e as características específicas de cada nicho de mercado, bem como do desempenho da edificação em longo prazo de acordo com a sua ocupação inicial e possíveis expansões.

Somam-se ainda os desafios inerentes aos recursos humanos necessários para o funcionamento das edificações na fase da pós-construção, com foco nos procedimentos de uso e nos padrões comportamentais. Trata-se de uma “conta que precisamos fechar” de modo customizado para cada um dos nossos projetos, sempre com o objetivo de gerar eficiência e resultados qualificados.

Adriana Levisky, arquiteta e urbanista
Adriana Levisky, arquiteta e urbanista. Foto: Nathalie Artaxo.

Você faz muitos projetos institucionais nas áreas de saúde. Quais são as principais características de um projeto neste segmento?

Aplicação de novas tecnologias, rigor técnico e inovação são características sempre presentes em nossa atuação na área de saúde. É uma área que se renova com uma velocidade muito intensa, se transforma de modo constante e extremamente rápido, características que exigem a concepção de projetos com excelência em desempenho e flexibilidade para adaptações igualmente constantes.

Desde a identificação e escolha do terreno mais adequado, passando pela definição do Plano Diretor e do projeto de arquitetura, até chegar ao resultado de um trabalho concebido integralmente para atingir eficiência, o papel do arquiteto que desempenha olhar estratégico e sistêmico é fundamental para o sucesso de empreendimentos na área de saúde.

Com atividades complexas e multidisciplinares que são realizadas de modo concomitante e contínuo, um hospital deve ser planejado, projetado ou reformado com extremo rigor para compatibilizar demandas do paciente, do corpo clínico, da enfermagem, dos demais funcionários e atender a uma série de exigências técnicas, tecnológicas, legais, financeiras e de bem-estar.

A realidade hospitalar apresenta questões bastante específicas que precisam ser bem entendidas e compatibilizadas no exercício do projeto. Fora a complexidade de interlocução entre os vários agentes que compõem a estrutura hospitalar necessária ao seu adequado funcionamento.

Além do corpo médico e de especialistas em suas diversas áreas de conhecimento multidisciplinar, há muitos departamentos que trabalham para garantir o funcionamento de um hospital, desde as áreas assistenciais ao corpo médico até as relacionadas à tecnologia da informação, segurança, recursos humanos, engenharia clínica, manutenção, entre outras.

Há uma complexa rede de departamentos com demandas e volumes de serviços específicos e que precisam estar sintonizados em uma planta hospitalar. Para que um resultado sustentável possa existir, ele é fruto de uma gestão muito cuidadosa de todos estes agentes envolvidos.

Independentemente de gênero, acredito que qualquer profissão exige batalha, posicionamento, conhecimento e qualificação. A minha trajetória sempre foi pautada nisso.

Encontrou alguma dificuldade no começo de carreira por ser mulher neste segmento? Ainda hoje existe alguma dificuldade?

O início de qualquer carreira é marcado por desafios e dificuldades inerentes à natural falta de experiência profissional e maturidade. Nunca lidei, no entanto, com o fato de ser mulher, como algo que me colocasse em uma condição de dificuldade.

Independentemente de gênero, acredito que qualquer profissão exige batalha, posicionamento, conhecimento e qualificação. A minha trajetória sempre foi pautada nisso.

No mercado atual de arquitetura, a profissional do sexo feminino é vista em pé de igualdade com um profissional homem?

Sabemos que historicamente essa condição de igualdade não se estruturou. No entanto, a nossa história recente também nos mostra que ao se posicionar técnica, política e institucionalmente, mulheres conquistam cada vez mais espaço e representatividade em suas respectivas especialidades e nas diversas áreas de atuação profissional.

É fundamental que nós, seres humanos atentos e vinculados às questões éticas e de responsabilidade social e profissional, criemos para nós e nossos pares oportunidades de atuarmos a partir de um posicionamento político, institucional e de rigor técnico.

Quais são os principais trunfos e qualidades que uma profissional feminina tem nesta área? O que as mulheres podem trazer de diferente dos homens?

Novamente, independentemente de gêneros, não se trata de uma “guerra dos sexos”. Todo profissional tem potenciais, qualidades e possibilidades de formação e qualificação constantes que podem fortalecer posicionamento e atuação no mercado.

Nesse sentido vale ressaltar que a pró-atividade e o empenho constante de energia para atuar político, social e institucionalmente são fundamentais aos profissionais em qualquer que seja a sua área de especialidade ou de atuação. Que se façam fortes e valorizados, na justa medida, os aspectos masculinos e femininos dentro de nós.

O que me parece fundamental, sobretudo, é enfatizar a importância de se incentivar de maneira dedicada a real interação entre o meio acadêmico e a indústria.

No ensino de arquitetura nas universidades, a sustentabilidade está presente desde o começo e é vista de uma maneira muito importante?

Há muita diversidade curricular entres os cursos universitários de arquitetura no Brasil. De acordo com seus aspectos geográficos, ambientais, sociais e econômicos, o território brasileiro também é caracterizado pela diversidade, o que indica a oportunidade da criação de disciplinas e consequentemente de programação curricular voltada à temática da sustentabilidade nos seus mais diversos desdobramentos e roupagens.

Para além desta diversidade, o que me parece fundamental, sobretudo, é enfatizar a importância de se incentivar de maneira dedicada a real interação entre o meio acadêmico e a indústria. Há que se aproximar a produção acadêmica das oportunidades e demandas reais da sociedade. Uma aproximação efetiva com a indústria é passo fundamental para esta conquista.

Estamos extremamente distantes dessa condição no Brasil. É emergencial que se volte o olhar para a forma como a academia vem historicamente se posicionando junto às perspectivas de desenvolvimento do País para que se possa aproximar a universidade da indústria e da pesquisa tecnológica aplicada.

O tema da sustentabilidade, de uma forma ou de outra, pode estar sendo abordado no ensino, mas, se falarmos especificamente com foco na graduação, estamos atrasadíssimos. Trata-se de um tema que requer atenção fundamental.

Precisamos qualificar a universidade e fazer com que as instituições educacionais de fato atuem de maneira proativa, produzindo e disseminando conhecimento em sintonia com as relações de mercado e sobretudo com a indústria para que se possa evoluir e construir em conjunto os alicerces da tão almejada qualidade de vida nas cidades e consequentemente no País, de uma maneira sustentável em longo prazo.

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