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De acordo com executivo da ABRHidro, é fundamental implantar políticas e gestão eficiente para o consumo de água em suas múltiplas finalidades.

gestão de água
ABRHidro tem 42 anos de atuação no setor hídrico. Foto: GettyImages/8818525082.
De 18 e 22 de março, o Going Green Brasil celebra o Dia Mundial da Água (22/3) com uma série de matérias especiais sobre este recurso vital para a vida humana e o desenvolvimento sustentável. Temas como saneamento básico, gestão eficiente, consumo consciente, dessalinização e reúso estão em pauta neste ano. Clique aqui para acompanhar os conteúdos publicados e ajude a promover o uso sustentável da água.

Em manifestação sobre o Dia Mundial da Água, celebrado hoje, 22 de março, a Associação Brasileiras de Recursos Hídricos (ABRHidro) faz um alerta para a necessidade de enfrentar questões que ameaçam a disponibilidade do recurso hídrico: degradação da qualidade, reserva insuficiente e gestão ineficaz.

O Brasil concentra 12% de toda a água doce disponível no mundo, sendo uma das maiores reservas hídricas do Planeta. Porém, este volume de água se concentra em regiões pouco habitadas e não impede as crises de abastecimento que são cada vez mais frequentes em diversos cantos do País.

Veja também: ONU lança relatório sobre desenvolvimento hídrico

Para professor Adilson Pinheiro, presidente da ABRHidro, é preciso garantir não só a disponibilidade da água, como, também a sua qualidade. Para isso, a gestão em seus diversos fins deve ser eficaz.

“Trata-se de uma substância vital a todos e um insumo fundamental ao setor produtivo. Como é um produto limitado, com locais e períodos de maior oferta, é preciso reservar e administrar seus usos para evitar crises hídricas, distribuindo a água disponível entre os diferentes usuários de forma adequada”, afirma Pinheiro, da ABRHidro.

Formado em Engenharia Civil pela Universidade Federal de Santa Catarina (UFSC), Adilson é mestre em Recursos Hídricos e Saneamento pelo Instituto de Pesquisas Hidráulicas da Universidade Federal do Rio Grande do Sul, além de ter realizado doutorado e pós-doutorado em Física e Química Ambiental em instituições na cidade de Toulose, na França.

Atua como professor do Departamento de Engenharia Civil da Fundação Universidade Regional de Blumenau (SC) e é presidente do biênio 2018-2019 da ABRHidro. A associação, fundada em 1977, congrega cerca de 2 mil pessoas físicas e jurídicas e se dedica ao avanço da gestão de recursos hídricos e de soluções eficientes em apoio ao desenvolvimento sustentável do Brasil.

Para o executivo, a receita para mudar este cenário passa por “muito planejamento, conhecimento técnico e responsabilidade social na gestão da água são fundamentais. Esta é a solução”.

Confira a seguir a entrevista exclusiva com Adilson Pinheiro, da ABRHidro, no Dia Mundial da Água.

Adilson Pinheiro, presidente da ABRHidro
Adilson Pinheiro, presidente da ABRHidro no biênio 2018-2019. Foto: Divulgação/ABRHidro.

Qual é o principal desafio do Brasil em relação à gestão e ao consumo de água?

Eu diria que são duas questões importantes. Em relação à gestão, nós não conseguimos implementar completamente a Política Nacional de Gestão de Recursos Hídricos em nível de Estados. Muitos Estados brasileiros ainda não criaram estruturas operacionais que apoiem a gestão de bacias hidrográficas.

Existe toda uma estrutura estabelecida pelo Sistema de Gestão de Recursos Hídricos e ela ainda não foi finalizada. Por exemplo, temos diversos comitês de bacias hidrográficas, mas não temos uma entidade delegatária que possa apoiar as tomadas de decisão destes grupos.

Alguns locais já estão bem avançados, como São Paulo, Rio de Janeiro e Distrito Federal, mas outros, como Santa Catarina, são bastante frágeis. O desenvolvimento de políticas nacionais é um dos grandes desafios para que se tenha uniformidade.

Na questão do consumo da água, temos uma politica que define que os fins são múltiplos, ou seja, há diferentes usuários que podem ter acesso à água como um recurso de poder econômico.

No entanto, percebemos que alguns setores possuem grandes conflitos em relação aos usos da água em bacias hidrográficas. A superação destes conflitos passa por um processo bem detalhado de como a locação do recurso será feita entre os diferentes usuários, além de melhorar a eficiência do uso.

Nós ainda temos setores nos quais o consumo da água é realizado em volumes muito superiores ao que é efetivamente necessário para aquela produção. A irrigação na agricultura, por exemplo, já demonstrou avanços e tecnologias aprimoradas, mas ainda existem soluções que são grandes consumidoras. A eficiência durante o uso certamente é outro grande desafio que temos que aprimorar para mitigar os desperdícios.

Além disso, temos que dialogar para que todos os usuários tenham consciência de buscar a minimização do volume necessário, de modo que nos grandes centros, onde a disponibilidade de água é relativamente reduzida, a locação entre os usuários dependa do uso eficiente do recurso nos diferentes setores.

Quais fatores contribuem para as recentes crises hídricas em centros urbanos?

Primeiro devemos lembrar que a água é um recurso limitado. Temos uma quantidade produzida que pode mudar de acordo com variações sazonais, mas sabemos qual é a capacidade real de produção das bacias. Isso significa que devemos comparar o que é demandado nos diferentes usos da água e, então, otimizar este uso pelo processo de reservação.

Algumas crises hídricas ocorrem devido ao crescimento acelerado da demanda ou de uma oferta que, às vezes, não alcança o potencial que a região tem. Nós precisamos reservar para que esta água esteja disponível e possa ser utilizada em momentos de crise.

Outro fator é a preservação da qualidade adequada para os diferentes fins. O Rio Tietê (SP), por exemplo, possui uma água que não pode ser aproveitada para fins de abastecimento público ou industrial porque a sua qualidade foi degradada. Se conseguíssemos preservar este manancial, certamente o volume para distribuição seria muito maior.

Portanto, de um lado temos o limite do recurso e o aumento da demanda, enquanto do outro lado, precisamos dar garantias de preservação da qualidade e de reservação. É preciso guardar água em períodos de abundância para usá-las em períodos de escassez. Isso é gerenciamento de crise.

Em edificações, cerca de 70% do consumo de água não precisa ser potável ou tratada, ou seja, desperdiçamos energia, insumos e recursos humanos para produzir água quando, na verdade, ela não requer esta qualidade.

Há muito desperdício de água em centros urbanos por questões de planejamento insustentável e da perda de água durante a distribuição. Como mudar esta situação e reservar mais água?

O índice de perdas no sistema de abastecimento de água potável no Brasil é muito elevado, na ordem de 38%. Temos que melhorar o controle da distribuição, baixando estes valores para números aceitáveis. Em países desenvolvidos, o índice é algo em torno de 14%.

Outro ponto que não temos trabalhado, referente principalmente ao esgoto sanitário, é elevar o reúso de água – hoje em dia, o reaproveitamento é muito baixo. Conciliar o controle de perdas com o crescimento do reúso é fundamental para o avanço sustentável.

Além disso, tem também a perda do volume de água das enchentes. Quando se tem enchentes, é liberada uma enorme quantidade do recurso, que, no final, não é armazenado em nenhum local. É importante armazenar esta água para uso não potáveis.

Em edificações, cerca de 70% do consumo de água não precisa ser potável ou tratada, ou seja, desperdiçamos energia, insumos e recursos humanos para produzir água quando, na verdade, ela não requer esta qualidade. Poderíamos utilizar fontes de reúso neste caso, o que contribuiria para aumentar a oferta nas cidades.

Veja também: Canteiro sustentável: saiba como reduzir o consumo de água nas obras

Como o setor da construção deve olhar para toda esta questão do uso eficiente da água?

Falamos muito do uso racional nas edificações, mas é preciso associar demandas como reaproveitamento de água da chuva com o manejo em áreas urbanas devido à impermeabilização produzida pelo desenvolvimento insustentável da construção. O setor tem que aproveitar melhor o recurso que está sendo gerado e, principalmente, se atentar aos seus impactos.

A água gerada de escoamentos pode ser aproveitada como uma fonte de abastecimento para a edificação, por exemplo, ou ser recolocada dentro do ciclo natural através de um processo de infiltração de água no solo, de modo que a quantidade que sai do local onde foi feita a construção seja efetivamente menor ou igual ao que se tinha na condição natural.

A impermeabilização do solo em decorrência da construção deveria ter esta compensação em relação ao processo de urbanização. Essa técnica de medidas compensatórias deve avançar no Brasil, em vários municípios foram criadas legislação nesse sentido. Isso deveria ser uma política de Estado, a nível nacional, para que todos adotem este procedimento dentro da construção civil.

Na questão do saneamento básico, cerca de 35 milhões de brasileiros não têm acesso à água potável. Os números são mais preocupantes se incluirmos coleta e tratamento de esgoto. Quais políticas públicas deveriam ser tomadas para reverter este quadro?

O saneamento básico tem uma demanda de politicas públicas que requer investimento. É preciso investir mais, com valores muito maiores que hoje. Nossa política de saneamento básico estabelece um horizonte para alcançar a universalização dos serviços, mas, para isso, é preciso realizar investimentos significativos.

Saiba mais: Saneamento básico apresenta evolução, mas cenário ainda é preocupante

O Plano Nacional de Saneamento Básico diz que a universalização será atingida em 2033, ou seja, temos quase 15 anos pela frente. Para que todos tenham acesso à água potável e ao esgoto coletado e tratado será preciso um investimento de R$ 360 bilhões.

Teríamos que investir mais de R$ 30 bilhões por ano. O investimento atual é em torno de R$ 10 ou R$ 11 bilhões por ano, muito abaixo do que o necessário. Nas condições atuais, será difícil alcançar a universalização dentro deste prazo.

Hoje desperdiçamos muita água que poderia ser reutilizada dentro de vários processos, não existe uma economia circular, nós usamos e jogamos fora.

Quais soluções sustentáveis podem ser adotadas enquanto órgãos públicos, empresas e comunidades para ajudar neste processo?

Acredito que a questão da dessalinização pode aparecer como alternativa viável. Ela tem se mostrado economicamente mais interessante, mas ainda continua sendo uma tecnologia bastante cara.

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A sustentabilidade passa por aproveitar melhor os recursos que já estão disponíveis, por exemplo, reúso do esgoto sanitário é uma alternativa que temos que trabalhar melhor, o uso racional dentro da edificação deve ser melhorado, etc. Hoje desperdiçamos muita água que poderia ser reutilizada dentro de vários processos, não existe uma economia circular, nós usamos e jogamos fora.

Temos alternativas sustentáveis a serem desenvolvidas e implementadas nas nossas atividades recorrentes, que passam pelos setores da construção e industrial, além do saneamento, no qual temos que avançar em politicas sustentáveis.

Como garantir a qualidade de água em casos onde não há abastecimento adequado via concessionária? Quais devem ser os cuidados com o recurso consumido?

Nos locais onde o serviço de esgotamento não é ofertado pelo setor público, é preciso melhorar os sistemas individuais. Não basta só implantar, temos que realizar manutenção periodicamente.

E nas regiões onde não há abastecimento de água via concessionária, certamente temos outras ações, como aproveitamento de outras fontes – nascentes e poços – e, algo mais importante, preservação de mananciais.

A qualidade da água não pode ser degradada, devemos proteger nascentes para preservar a qualidade e o volume do recurso hídrico.

Quais ações são efetivas na conscientização da população?

Sempre que tivermos estes momentos de visibilidade, como o Dia Mundial da Água, os atores que têm possibilidade de formar opiniões devem continuar envolvendo a sociedade nas discussões, aproveitando a ocasião para que cada vez mais pessoas participem do processo de conscientização.

E não só nessas datas, mas o envolvimento da população deve ser contínuo, em diferentes ações que são necessárias. A participação da sociedade é extremamente importante para enfrentar crises hídricas, contribuindo para a solução destes grandes problemas. É um papel decisivo nos resultados a serem alcançados.

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