O que a pandemia do novo coronavírus nos ensina e o que projeta como tendências para o futuro das relações econômicas e do mercado

pandemia

O ano de 2020 está marcado para sempre com o trauma da Covid-19, que se espalhou rapidamente a partir da metade do primeiro trimestre do ano e que derrubou todas as perspectivas otimistas que o mercado tinha com relação à retomada da economia esse ano, por conta das reformas implementadas em 2019.

A economia em geral e o mercado imobiliário, em especial, que vinha ensaiando um processo de recuperação, após se arrastar lentamente desde 2013, quando a economia começou a dar sinais de desaquecimento, foi agravado a partir de 2015 em meio às incertezas políticas, ansiava muito pela retomada a partir deste ano.

A implantação da quarentena em nosso país, uma das medidas para conter a proliferação veloz do novo coronavírus trouxe, além das consequências graves para a economia, mudanças importantes em vários aspectos da vida cotidiana, seja nas relações de trabalho, seja na preocupação com novos hábitos de higiene e segurança e o confronto inevitável com as desigualdades sociais que permitem antever um claro colapso do sistema de saúde nacional, tão pouco privilegiado pelas políticas de investimento dos últimos governos.

Fizemos uma série de entrevistas com alguns dos especialistas do mercado da sustentabilidade, que deram suas opiniões e impressões sobre o momento atual, as perspectivas e tendências de transformação que o futuro nos reserva. Confira hoje o resultado desta pesquisa e, na próxima semana, as entrevistas na íntegra.

Impactos nas empresas

“Para nós, o primeiro impacto que veio, obviamente, e que todo o mercado precisou se adequar foi o trabalho remoto e não tínhamos essa prática como costume” comenta Marcelo Nudel, diretor geral da Ca2 Consultores Ambientais Associados. “Não porque não acreditamos no modelo home office, mas sim porque gostamos do ambiente do nosso escritório, de estarmos juntos”, completa Marcelo, cujo novo escritório, com pouco mais de um ano apresenta condições de trabalho bastante propícias ao bem estar dos colaboradores, com plantas, muita luz natural, o que contribui para a produtividade da empresa.

Luiz Henrique Ferreira
Luiz Henrique Ferreira, Inovatech. Foto: Irit Tommasini

Luiz Henrique Ferreira, CEO da Inovatech Engenharia explica que o processo de adaptação ao home office foi rápido, durando aproximadamente uma semana, mas com os percalços inerentes à uma clara mudança de paradigma, como ele conta no Blog da Inovatech. Um dos benefícios dessa nova modalidade foi que “vínhamos há muito tempo querendo fazer reuniões remotas por conta de termos nossa equipe muito enxuta e evitar perda com os deslocamentos, mas havia pouco eco para fazer esse tipo de reunião via web e com essa situação isso se reverteu”, destaca Luiz Henrique.

Algumas empresas não sentiram tanto essa mudança no dia-a-dia. É o caso da Ecobuilding, que segundo seu diretor e fundador, Antonio Macêdo Filho, “do ponto de vista operacional, como já vínhamos atuando com a maior parte da equipe remota, a mudança não foi grande”.

Em termos de relacionamento com o mercado, ficou claro que a manutenção de uma via de comunicação com os clientes é um dos pontos a serem considerados fundamentais nesse período de incertezas. “Mantivemos uma grande proximidade com nossos clientes, nesse momento crítico” destaca Luiz Henrique, completando ainda que a empresa “não enxerga nenhum cenário de redução de efetivo”, inclusive fazendo contratações durante a quarentena.

Ainda segundo Luiz Henrique, a maioria dos clientes manteve os seus contratos em andamento e foram muito poucos os clientes que pararam as atividades. “O que se percebeu, no mês de abril, foi uma apreensão grande e diminuição expressiva nos prospects e novos negócios”, enfatiza o sócio da Inovatech.

marcelo nudel
Marcelo Nudel, Ca2

Marcelo Nudel destaca o foco no relacionamento e no marketing da empresa nesse momento. “O momento é de reforçar relacionamentos e estamos fazendo isso através do marketing de conteúdo. Intensificamos a produção de vídeos no nosso canal do Youtube, estamos bastante ativos em conteúdo técnico no Linkedin e Instagram e iniciamos um plano de produção de e-books e lives que estava engavetado pois estivemos com muito trabalho nos últimos 2 anos”, completa Nudel.

Outra vertente nesse momento é a promoção de conhecimento. “Estamos desenvolvendo novos programas de cursos” salienta Macêdo, destacando ainda os cursos online EcoBuilding Fórum, para o período de quarentena.

Percepções do momento atual projetam perspectivas para o futuro

As formas de trabalho e de viver estão sendo colocadas em cheque. De maneira compulsória, sairá desta crise um novo mundo, com novas maneiras de enxergar os desafios e, principalmente, a relação com o meio ambiente e com os espaços construídos.

Temos visto, em diversas partes do globo, relatos de diminuição na poluição do ar, renovação de habitats e ressurgimento de fauna e flora em ambientes anteriormente desgastados pela ação do homem. “Sou otimista nesse sentido, creio que aprenderemos muito com essa crise e que a sustentabilidade voltará ao palco principal das discussões e ações em nível global” reflete Marcelo Nudel, da Ca2.

“Estamos de fato reduzindo drasticamente emissões, a pegada ecológica, o impacto ambiental da humanidade, mas a um custo econômico gigantesco e graças a um fator externo que é este vírus que está impactando a sociedade” alerta Luiz Henrique, da Inovatech. “Por outro lado, eu vejo na questão da sustentabilidade, as pessoas tendo uma preocupação maior com o bem-estar dos edifícios, embora mais pelo lado da saúde.”


Confira nos próximos dias, as entrevistas na íntegra, dos especialistas ouvidos nesta reportagem.


Antonio Macedo
Antonio Macêdo Filho, Ecobuilding

Segundo Antonio Macêdo, “isto deve levar ao fortalecimento das questões relacionadas ao chamado Movimento Wellness, já vinha crescendo em todo o mundo nos últimos anos”. Certificações ficadas na saúde, conforto e bem estar das pessoas, como o pioneiro sistema WELL Building Standard, devem ganhar impulso neste momento, projetando-se como uma nova visão para a qualidade ambiental das edificações (aspectos como a qualidade do ar, da luz, da acústica, da água, da alimentação, atividades físicas e convívio social, dentre outros).

“Além disso, as empresas estão percebendo que é possível funcionar e serem produtivas com espaços de trabalho mais econômicos e eficientes, com equipes trabalhando de diferentes formas, em diferentes lugares, o que impacta em reduções de consumos de energia, de água, matérias e insumos” conclui Macêdo.

Esta também é a percepção de Luiz Henrique, da Inovatech. Para ele, “as empresas vão se tornar mais eficientes pois será possível integrar horários de trabalho em home office parcial.” As residências, por outro lado, também deverão se adaptar e dar mais importância também à qualidade dos ambientes.

Quando a pandemia acabar

O mercado tem clamado fortemente pela volta às atividades, em claro enfrentamento às orientações da OMS para o controle da pandemia. É inevitável constatar que os estragos na economia serão grandes, quanto maior for o período de quarentena e isolamento social. “Quanto mais demorar isso, mais problemas como a desconfiança do mercado, desemprego, queda nos faturamentos e este será o fator decisivo para a retomada do mercado” alerta Luiz Henrique.

Já para Antonio Macêdo, a reabertura gradual das atividades, pode levar a uma retomada dos negócios mais acelerada, e o setor da construção “deve inclusive colaborar para a retomada do crescimento do país, já no próximo ano, com índices superiores à média nacional” conclui. Por esse motivo, não há uma concordância que a volta à normalidade será rápida, ou tampouco fácil.

David Douek, diretor da OTEC, acredita que será necessário observar com atenção cada setor da sociedade pois os impactos em cada atividade econômica parecem ser bastante diferentes. “Os ajustes deverão serão feitos sempre com base na maior viabilidade econômica”conclui.

O fato é que, neste momento, o enfrentamento à Covid-19 é o que orienta os passos de um mercado apreensivo e de uma sociedade em ebulição política permanente. “Se levarmos a pandemia a sério como sociedade, fizermos nossa parte ficando em casa e nos cuidando, creio que o impacto na economia será menor no longo prazo”, opina Marcelo Nudel, da Ca2. “Acredito que teremos um 2020 difícil até o final, mas a retomada deve vir a partir de 2021. E em 2022 temos eleições, mais uma chance para consertarmos o estrago que fizemos nas últimas”, finaliza.

 

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