Confira a entrevista com Luiz Henrique Ferreira, CEO da Inovatech Engenharia, sobre o momento atual e as tendências no pós-pandemia.


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luiz henrique ferreira

Fizemos uma série de entrevistas com alguns dos especialistas do mercado da sustentabilidade, que deram suas opiniões e impressões sobre o momento atual, as perspectivas e tendências de transformação que o futuro nos reserva.

Apresentamos, na íntegra, a entrevista com Luiz Henrique Ferreira*, da Inovatech:

Portal Going Green Brasil. Qual o principal impacto que a quarentena/pandemia trouxe para a sua empresa? Em termos de funcionamento e, principalmente, como impactou os negócios…

Luiz Henrique Ferreira. Em termos de funcionamento, muito rapidamente fomos para o home office, conforme eu conto em um post no Blog da Inovatech.

Do ponto de vista de negócios, nós sentimos que pouquíssimos clientes pararam as atividades, que colocaram o pé no freio nos seus contratos. O que se percebeu, no mês de abril, foi uma apreensão grande e diminuição expressiva no fluxo de novos prospcets e novos negócios. Fechamos vários negócios durante a quarentena, já com todo mundo em home office e foi muito interessante conhecer novos clientes e fazer reuniões iniciais de projeto virtualmente.

O que ficamos felizes é que vínhamos há muito tempo querendo fazer video-conferências, reuniões remotas, para otimizar nossa equipe, que é muito enxuta e de alta performance, e perdia-se muito tempo com os deslocamentos, mas havia pouco eco para fazer esse tipo de reunião via web e com essa situação, isso se reverteu.

GGB. Quais foram as alternativas que vocês buscaram (se existiram, ou se foram necessárias) para manter os negócios em andamento?

LH. Nós mantivemos uma grande proximidade com nossos clientes, neste que é um momento crítico, o ponto principal foi a proximidade. No nosso caso, como a empresa está sólida e não enxerga nenhum cenário de redução de efetivo, nós fizemos, inclusive, nossa primeira contratação em home office.

GGB. Como você avalia a percepção dos clientes e do mercado em geral, frente aos desafios desse momento… Houve (se houve) apenas retração de investimentos? Houve (se houve) mudança de prioridades? Houve (se houve) mudança de posicionamento em relação aos negócios em andamento?

LH. Todo mundo está muito apreensivo, ninguém sabe o que vai acontecer. O segmento imobiliário está começando a apresentar os primeiros distratos e uma queda expressiva nas vendas, principalmente do médio e alto padrão e isso gera uma certa apreensão do mercado.

Percebemos que o momento foi de manter o que está em andamento e não começar coisas novas. O mercado está bem unido e conversando bastante para manter a integridade das pessoas e não prejudicar muito os negócios.

luiz henrique ferreira
Luiz Henrique Ferreira, Inovatech. Foto: Irit Tommasini

Mantivemos uma grande proximidade com nossos clientes, nesse momento crítico

GGB. O que você acredita que esse momento irá impactar, negativamente, (e também positivamente), no desenvolvimento de novos negócios associados à sustentabilidade e normas?

LH. Eu penso que, agora que estamos no ano de 2020 e eu estou há muitos anos nesse mercado, lá em 2005, 2006, quando eu comecei a atuar nesta área da construção sustentável, existiam diversos projetos mundiais de “Agenda 2020” e nesse momento eu vejo, como estamos de fato em 2020 reduzindo drasticamente emissões, a pegada ecológica, o impacto ambiental da humanidade, mas a um custo econômico gigantesco, dificilmente mensurável, e graças a um fator externo que é um vírus que está impactando a sociedade. Com certeza é um cenário que ninguém imaginava, que ninguém queria, isto é, abrir mão de ganhos econômicos em prol da sustentabilidade, em prol da redução das emissões.

Mas vejo que esse momento, do ponto de vista mais amplo de sustentabilidade, vamos ter uma questão de melhora da eficiência. De fato, há muitas empresas e muitas pessoas que estão reavaliando e repensando os formatos antigos de negócios porque estão percebendo que é possível fazer de uma maneira mais eficiente. Eu vejo, na questão da sustentabilidade, que as pessoas têm uma preocupação maior com o bem-estar dos edifícios. Vejo um crescimento de certificações que estão atreladas ao bem estar, por exemplo, a certificação Well vai vir muito forte, tanto no lado da preocupação com saúde, mas também as pessoas passaram a ficar muito tempo em casa e o mercado imobiliário, que nos últimos anos foi se moldando para que as pessoa só fiquem em casa para dormir, e então tudo ficou centrado nas áreas comuns, nas áreas compartilhadas e não nas áreas privativas. E agora estão todos precisando das áreas privativas e isso deve ocasionar uma mudança importante no mercado.

Do ponto de vista de normas não vejo grandes mudanças. As normas estão aí e tem que ser atendidas, independente da condição do mercado, então não vejo mudança. O que vejo é que na sustentabilidade, muitas empresas vão reduzir suas emissões porque vão se tornar mais eficientes, seja na questão do home office parcial, não do jeito que está hoje, porque depende muito da qualidade das residências, das pessoas que tenham, de fato, um local quieto para poder se concentrar e poder trabalhar; tem a questão da salubridade, e da iluminação, ou seja, tem uma série de questões das residências que tem que ser discutidas e, além disso, a interação física que é importante, pois o ser humano é um ser sociável, comunicativo que vai precisar trabalhar com isso.  

Eu vejo a redução de emissões com viagens aéreas vão cair muito, pois ficou claro que não faz sentido pegar um avião e voar 2 mil km para fazer uma única reunião então a questão virtual veio pra ficar e, consequentemente, vai gerar redução nas empresas e isso tem um impacto positivo.

GGB. Acredita que a normalização do mercado se dará de maneira rápida ou tímida, e que cenário projeta para os próximos 24 meses? 

LH. A normalização do mercado não vai ser muito rápida. Hoje, projetar 24 meses pra frente seria uma imprudência da minha parte, até porque se olharmos 3 meses pra trás e ver que estava tudo ótimo, todo mundo super otimista, a bolsa em alta, ano contratado para as empresas, então projetar 2 anos para frente é inviável.

O que eu consigo enxergar hoje é que a velocidade da recuperação do mercado é proporcional à duração do isolamento social. Quanto mais tempo o isolamento social demorar, maiores serão os estragos econômicos, desemprego, queda de confiança, endividamento, e este são os fatores decisivos para mensurar o tamanho da retomada do mercado. Ou seja, quanto mais existir a ocorrência desses fatores, mais o mercado imobiliário irá sofrer. E isso é uma questão puramente temporal. Isto é, quanto mais rápido voltarmos a trabalhar, mais rápido o mercado vai voltar, porém, eu vejo com bastante cautela, pelo que tenho visto acontecer na Europa.

O isolamento acontece muito rapidamente, iniciando-se de forma abrupta, através de um decreto – simplesmente isola-se todo mundo – mas a volta é sempre um processo mais lento. Na Áustria e na Alemanha, onde tenho amigos que moram, começam a ser liberados os comércios maiores, depois as escolas, aos poucos, então o que se percebe é que o relaxamento do isolamento deve durar mais uns 2 ou 3 meses depois de começar o afrouxamento.

Concluindo, a recuperação não vai ser muito rápida pois o prazo vai ser longo e o sofrimento vai ser grande.

Concluindo, a recuperação não vai ser muito rápida pois o prazo vai ser longo e o sofrimento vai ser grande


*Luiz Henrique Ferreira é engenheiro Civil formado pela Escola Politécnica da Universidade de São Paulo em 2001, com especialização em empreendedorismo e planejamento sucessório pela Babson College nos EUA. Também é pós-graduado em estratégias para negócios sustentáveis e gestão de empresas inovadoras pelo MIT (Massachusetts Institute of Technology) nos EUA. Foi professor da pós-graduação da Universidade Mackenzie, e é professor convidado da Escola Politécnica da Universidade da São Paulo. Fundou a Inovatech Engenharia em 2005, e é responsável por mais de 200 empreendimentos sustentáveis certificados nos mais diversos setores da construção e por mais de 150 empreendimentos residenciais assessorados para atendimento à Norma de Desempenho. Também é idealizador da Casa24h, conceito de construção de altíssima produtividade com foco em sustentabilidade, qualidade e atendimento rigoroso às normas vigentes. Luiz Henrique contribui com os principais veículos de comunicação do Brasil no tema sustentabilidade na construção.

 

 

 

 

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