Confira a entrevista com Antonio Carlos Rodrigues, CEO da ACR Arquitetura, sobre a importância da sustentabilidade nos projetos de hospitais.


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Antonio Carlos Rodrigues, CEO da ACR Arquitetura

Conversamos com especialistas em arquitetura hospitalar para falar sobre os hospitais em meio à pandemia, suas opiniões e impressões sobre o tema e os desafios do setor.

Apresentamos, na íntegra, a entrevista com Antonio Carlos Rodrigues*, da ACR Arquitetura:

Portal Going Green Brasil. Qual a importância e as principais características de um hospital sustentável?

Antonio Carlos Rodrigues. Hoje em dia eu relaciono o termo “sustentável” a projetos contemporâneos e responsáveis!  Todo ambiente construído deve ser sustentável, especialmente os ambientes voltados ao cuidado com a saúde, como os hospitais, mas não somente. Entendo como projeto contemporâneo aquele que usa todo o conhecimento disponível a seu benefício, aquele que constrói para o futuro e não para o passado. Responsável é todo aquele que se coloca no lugar do outro, todo aquele que tem um compromisso não só com o seu cliente, mas com todos os usuários do espaço construído, com as gerações futuras e o meio ambiente.

Diria que um hospital sustentável tem como principal característica ser um ambiente saudável e hospitaleiro com todos os seus usuários.  Quando digo usuários do sistema de saúde, me refiro não somente ao paciente, mas também a seu acompanhante ou família, ao corpo clínico e administrativo e aos fornecedores, ou seja, a todos que transitam ou usam o equipamento.

GGB. Do ponto de vista da operação, quais os principais desafios que devem ser enfrentados, em termos do ambiente hospitalar, contaminação, bem-estar e conforto?

ACR. O projeto de um hospital é muito complexo. Envolve muitas disciplinas, tanto no projeto como na sua operação, sendo assim, tanto projetar quanto operar um edifício hospitalar só é possível com o trabalho em equipe e com muito planejamento e gerenciamento.

O controle de contaminação / infecção é sem dúvida o desafio mais importante, caso contrário o hospital perde seu sentido de existir, e a isto chamamos de fluxos. Fluxo de entrada e saída de insumos, de pessoas, de lixo, de material esterilizado e a esterilizar, enfim o fluxograma de um hospital é estratégico. O bem-estar, o conforto, o acolhimento, a segurança dos usuários e muitos outros aspectos são de absoluta importância também, todos impactam no bem-estar.

O principal desafio da operação é manter, atualizar e operar os edifícios sem interromper ou prejudicar o atendimento, sem transtorno físico ou psicológico para todos os usuários. Daí a importância de um bom projeto, que é um bom investimento, um mal projeto custara muito caro para a instituição, ao longo do tempo de operação. O mesmo vale para um edifício sustentável, “verde”, que é um ótimo investimento pois propicia uma operação mais fácil e econômica.

GGB. O que temos visto nesse tempo de pandemia, são os hospitais de campanha, como de Wuhan, na China e diversos deles aqui pelo Brasil. O que estes hospitais nos mostram em termos de sustentabilidade e inovação de projetos?

ACR. Esses hospitais de campanha que estão sendo montados com lonas e divisórias são em geral transitórios, não são feitos para durar, logo não são nada sustentáveis, acredito que tudo deve virar entulho depois de passada a emergência. A maioria deles está sendo executada por empresas de eventos, com materiais de estandes de feiras, alguma coisa é reutilizada, mas a maioria é descartada.

GGB. Sobre as certificações existentes em projetos de hospitais, o LEED for Health e o AQUA, quais os pontos mais relevantes para a obtenção destes selos?

ACR. Acho que o ponto mais relevante é a economia de recursos na construção e a economia na operação, no que tange ao consumo de energia, água e manutenção.

GGB. Na sua opinião, o que este momento da pandemia pode agregar à questão hospitalar em termos de conscientização das melhorias das condições dos projetos?

ACR. Precisamos aprender com esta crise. Se não aprendermos, teremos outra e outra, e cada vez mais severas. A primeira lição que devemos levar desta pandemia é que a saúde não pode estar delegada simplesmente à livre iniciativa, na mão do mercado, é um assunto do estado. O governo tem que prover e gerenciar a saúde pública para todos.

A gestão da saúde já vem sendo abordada a algum tempo no mercado e acho que esta questão será mais forte daqui em diante. Temos que ter moradias, cidades e transporte mais dignos e salubres. Não podemos nos ater somente a cuidar da doença, temos que otimizar nossa saúde para uma vida longa e com qualidade.

Espero que o mundo cuide melhor do meio ambiente. A jornalista Eliane Brum comparou a pandemia de Covid-19 com o aquecimento global. Se o aquecimento acontecesse de forma mais rápida, seus efeitos seriam tão visíveis quando os desta pandemia. Ambos atingem o planeta todo, exigem mudança de comportamento e são fatais.

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Centro Diagnóstico Fleury Medicina e Saúde – Unidade Ponte Estaiada

GGB. Por fim, fale um pouco sobre o seu relacionamento com os projetos de hospitais sustentáveis.

ACR. Tenho três projetos de edifícios de saúde com certificação LEED. Um deles é um Centro Diagnóstico do Fleury e é LEED Platinum. Minhas experiências foram ótimas, o trabalho em equipe foi extremamente compensador e motivador. Sempre que consigo o apoio do cliente desenvolvemos projetos sustentáveis em algum nível, mesmo que sem certificação.


*Antonio Carlos Rodrigues é arquiteto, formado pela PUC Campinas em 1987, sócio fundador do escritório de projetos ACR Arquitetura em 1995, e possui expertise em Arquitetura Hospitalar e Ambientes de Saúde. Em seu portfólio conta com projetos de Hospitais, Centros de Diagnóstico, Laboratórios e Clínicas de Reprodução Humana e clientes como: Fleury Medicina e Saúde, Clínica Huntington, Unimed, Hospital Israelita Albert Einstein, Hospital do Coração, Dr. Consulta, Hospital das Clínicas de São Paulo, CDB Medicina Diagnóstica, Salomão Zoppi Diagnósticos, entre outros. Apresenta profundo entendimento do “negócio” saúde, adquirido no desenvolvimento e gerenciamento de projetos de extrema complexidade técnica, e expertise em protocolos de Sustentabilidade em Arquitetura para Saúde, já tendo obtido certificações LEED (Leadership in Energy and Environmental Design) nas categorias Platinum e Gold. Conta com uma equipe multidisciplinar para desenvolver além dos projetos, também os conceitos e o design que constroem a imagem das empresas de saúde.

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