Aproveitamento de resíduos orgânicos pode contribuir para a descarbonização de toda a rede elétrica brasileira


Por Vinícius Ambrogi*, líder da divisão de meio ambiente na EBP Brasil


Imagem: Divulgação EBP Brasil

O estado do Amapá viveu por 20 dias um apagão ocasionado por um incêndio em um transformador da empresa responsável pela transmissão de energia elétrica. Meses antes, um estudo do Instituto Escolhas havia apontado o potencial do estado para a produção de biogás: utilizando somente os resíduos sólidos urbanos e os rejeitos da piscicultura, o Amapá poderia gerar energia o suficiente para abastecer 50 mil pessoas. Embora não seja o bastante para atender a demanda dos mais de 860 mil habitantes espalhados pelos 16 municípios do estado, seria uma alternativa para mitigar crises como essa e evitar a paralisação, por exemplo, de serviços essenciais.

O biogás é discutido no país há mais de 20 anos, e ganhou ênfase quando os incentivos vindos dos créditos de carbono atraíram, a partir de 2005, os olhares para o tema. No entanto, de lá para cá, o biogás pouco avançou como solução dedicada à geração de energia. De acordo com a Empresa de Pesquisa Energética (EPE), essa energia renovável representa apenas 1,3% de toda a matriz energética brasileira, incluindo aqui a recuperação dos gases de aterros. Embora recentemente tenhamos começado a ver notícias de unidades de geração de biogás sendo instaladas, se compararmos o estágio em que estamos com o momento do mercado europeu de biogás, fica nítido um atraso de 10 a 15 anos do Brasil. 

Para se ter uma ideia, a Alemanha já gera mais energia renovável em períodos do dia do que consome. O cenário das fontes renováveis no país começou a motivar discussões sobre a viabilidade de estocar energia e de transformar esse excedente em gás hidrogênio e por conseguinte em biogás, para injeção nas redes de abastecimento.

Por aqui, a precificação da energia, as diferenças nas matrizes energéticas, a aceitação das novas tecnologias e os entraves regulatórios e normativos foram alguns dos fatores que motivaram esse descompasso em relação a outros mercados. 

Hoje, dos 175 GW instalados e em operação, 85% são de fontes de energia renováveis. O Brasil tem um enorme potencial de produção desse tipo de energia, e se aproveitá-lo, pode descarbonizar por completo a rede de energia elétrica de todo o país em menos de uma década. 

Caminhos viáveis

Por se basear no aproveitamento de biomassa residual de diferentes fontes, o biogás pode ser produzido a partir dos resíduos da agroindústria, do tratamento de efluentes, de resíduos domiciliares e esgotamento sanitário, assim como de processos industriais alimentícios. Destes, é o agronegócio que representa o maior potencial, por ter evoluído muito nos últimos anos, tanto na importância econômica quanto na tecnologia aplicada.

De acordo com um relatório do Fundo Global para o Meio Ambiente, feito em parceria com o CIBiogás, só na região Sul do país o agronegócio já teria capacidade de produzir mais de  9 milhões de Nm3/dia, o suficiente para atender ao consumo de energia elétrica de mais de 1,5 milhões de habitantes – o equivalente a uma cidade do tamanho de Recife (PE).

Para que os resíduos agroindustriais sejam convertidos nesta forma de energia, é preciso instalar unidades de biodigestão com elevados graus de controle de processo e automação. Essas unidades devem acondicionar uma degradação controlada que resulte em biogás com qualidade monitorada e uma geração contínua de energia. Este conjunto de requisitos técnicos elimina problemas operacionais que dificultam a regulamentação e comercialização de biogás como potencial fonte confiável de energia. 

Tais instalações demandam um investimento de cerca de 10 milhões de reais por MW instalado, em média. Um valor que pode ser recompensado não só pelo consumo de energia, mas também pela venda do biofertilizante resultante do processo, pela venda de créditos de carbono viabilizados pela redução de emissões, por investimentos impulsionados pelo atendimento aos requisitos ESG, pelo cumprimento de metas de neutralização de carbono, entre outras possibilidades.  

Por isso, fomentar a produção e o consumo de biogás depende de políticas públicas que ajudem investimentos como esse a decolar, a exemplo do que já foi realizado em diversos países e também no Brasil, com outras fontes energéticas renováveis como a eólica, a fotovoltaica ou o biodiesel. Outro caminho é via incentivos financeiros diretos ou a adoção de regulamentação que gere obrigatoriedade da mistura de biogás nas redes de gás natural do país. 

O Brasil tem a possibilidade de, em 10 anos, ter 100% da rede elétrica gerada a partir de fontes renováveis, e parte dela vinda de uma destinação mais nobre e sustentável dos resíduos orgânicos. Para que isso aconteça, é preciso um esforço conjunto e profícuo para recuperar o tempo perdido. O crescimento do biogás no Brasil pode ser uma grande contribuição para impedir que o país fique para trás no desenvolvimento de tecnologias e soluções ambientais de importância, não só para o país como para todo o mundo. 


*Vinícius Ambrogi é líder da divisão de meio ambiente na EBP Brasil, tem desenvolvido projetos de ações emergenciais e preventivas a acidentes e eventos com potencial dano aos negócios e ao meio ambiente. Em sua trajetória desenvolveu projetos em licenciamento ambiental e due diligence, tendo trabalhado na divisão de proteção e risco da EBP Suíça por dois anos, retornando em 2017 ao Brasil e, desde então, atuando em projetos envolvendo a temática risco e consequências nas operações industriais e de mineração.

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