Por Josep Buades*, diretor do escritório da ACCIÓ — Catalonia Trade & Investment no Brasil.


Quando falamos em ESG no Brasil, é comum que a conversa comece — e muitas vezes termine — nas empresas. Muito já se foi falado sobre descarbonização, diversidade, governança, relatórios de sustentabilidade e compromissos ambientais e, de fato, tudo isso é importante. Contudo, talvez estejamos olhando para uma parte pequena demais da transformação que o ESG exige. 

A sustentabilidade, por exemplo, também é uma questão de território. De como planejamos as nossas cidades, usamos os nossos recursos naturais, organizamos a mobilidade urbana, tomamos decisões públicas e, principalmente, envolvemos a sociedade nessas decisões. 

E é justamente nesse ponto que olhar para Barcelona-Catalunha pode ser tão interessante para o Brasil. Não porque a experiência catalã possa ser simplesmente importada para a realidade brasileira, afinal, os nossos desafios, dimensões territoriais e desigualdades são muito diferentes. Mas porque Barcelona-Catalunha oferecem algo que o Brasil pode observar com atenção, que é a tentativa de transformar sustentabilidade em prática de governo, inovação, desenvolvimento econômico, e não apenas em discurso. 

A região tem construído, nos últimos anos, uma série de experiências que colocam a cidade como um verdadeiro laboratório de inovação pública. 

Um dos exemplos mais interessantes é o Decidim, plataforma digital de participação cidadã. Nos orçamentos de 2024-2027, Barcelona destinou € 30 milhões para projetos escolhidos pela população. Na votação final, realizada em 2025, quase 49 mil cidadãos participaram, registrando mais de 211 mil votos. Ao longo de todo o processo, aproximadamente 89,5 mil pessoas estiveram envolvidas. O ponto mais relevante, porém, não está no número, mas sim na lógica. 

A tecnologia não foi utilizada apenas para tornar a administração pública mais eficiente, mas para aproximar o cidadão da decisão sobre como os recursos públicos devem ser utilizados. 

Para o Brasil, essa experiência levanta uma questão importante de como podemos usar tecnologia, dados e inteligência artificial não apenas para digitalizar serviços públicos, mas para ampliar a participação e a qualidade das decisões. Essa talvez seja uma das dimensões mais interessantes do “G” de ESG, afinal, governança não deveria significar apenas compliance, transparência ou prestação de contas, mas capacidade de ouvir, envolver e prestar contas à sociedade. 

Paralelo a isso, a Catalunha vem desenvolvendo indicadores alinhados às referências europeias para acompanhar a sua transição para uma economia circular. Os números mostram avanços, mas também mostram que não existe uma história de sucesso pronta. Em 2022, a taxa de reciclagem de resíduos municipais chegou a 45,3%, ligeiramente acima dos 44% da União Europeia. Ao mesmo tempo, a participação das energias renováveis e outros indicadores ainda mostram uma distância importante em relação à média europeia. Essa contradição é saudável, já que mostra que inovação não significa acertar sempre, mas medir, testar, reconhecer as lacunas e ajustar a estratégia. 

E talvez seja exatamente esse comportamento que o Brasil pode incorporar à sua própria agenda ESG, já que o país tem uma vantagem que nenhum território europeu consegue reproduzir na mesma escala: biodiversidade, recursos naturais, matriz energética relativamente renovável, capacidade agrícola e um mercado interno de dimensões continentais. Ao mesmo tempo, enfrenta desafios igualmente enormes em saneamento, gestão de resíduos, mobilidade urbana, desigualdade, infraestrutura e qualidade dos serviços públicos. A questão, portanto, não é escolher entre o modelo brasileiro e o modelo europeu, mas criar uma ponte entre experiências. 

Barcelona-Catalunha pode ensinar sobre inovação urbana, economia circular, indicadores e articulação entre governo, empresas, universidades e sociedade. O Brasil, por sua vez, possui desafios e ativos ambientais que exigem soluções próprias e que podem, inclusive, gerar inovação que seja relevante para o mundo. 

Em vez de enxergar sustentabilidade apenas como custo de adequação, podemos tratá-la como oportunidade para evolução, geração de empregos, novos negócios, melhoria da infraestrutura, aumento da eficiência, e conexão Barcelona-Catalunha-Brasil pode justamente nascer daí. Não se trata de importar modelos, mas criar intercâmbio. 

Mais do que copiar Barcelona, o Brasil pode conversar com Barcelona. Mais do que importar soluções catalãs, pode construir soluções brasileiras a partir das experiências que a Catalunha já testou. Porque, no fim, inovação sustentável não é sobre encontrar um único modelo para todos. É sobre criar capacidade para aprender uns com os outros e transformar esse aprendizado em impacto real.


*Josep Maria Buades Juan (Palma de Maiorca, Espanha, 1973) é doutor em história, licenciado em direito e MBA por ESADE (Barcelona, 2000). Reside no Brasil desde 2000, onde exerce atividades de consultoria e execução de projetos de comércio exterior. Em dezembro de 2010 assumiu o cargo de Diretor do Escritório Exterior de Comércio e Investimentos da Catalunha – Catalonia Trade & Investment / ACCIÓ, agência encarregada de incentivar a internacionalização e a inovação das empresas, assim como a atração de investimentos.

Deixe um comentário